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De iguarias e de amor

Antonio Falcão

De iguarias e de amor

A duras penas, na cozinha eu só sei fritar ovo e “fazer” nescafé. Contudo, mesmo sem nunca ter sido glutão (o que me torna, também por herança, magro), tenho meus pratos prediletos. Um deles é linguiça na brasa, que em datas distintas comi na Feira de Caruaru, numa rua qualquer de Praga (sem páprica) e num box do Mercato la Boqueria, em Barcelona. Outro pitéu foi o espaguete à carbonara polvilhado de parmesão, devorado com gula em uma reles trattoria de Roma. Isso sem falar na divina moqueca de peixe sorvida no olindense Alto da Sé. Só que a iguaria de maior luxo veio a ser o pato ao molho de figo, servido com vinho tinto Petrus – bordeaux superior – no caro restaurante La tour d´argent, à margem esquerda do Sena, em Paris. (À época, eu estudava lá. E a convite – claro! – de um advogado bem-sucedido no Rio e em São Paulo pude ver enquanto jantava no chique 5º andar as belezas inesquecíveis da ilhota de Saint Louis. Isso além de contemplar a parte traseira da Catedral de Notre Dame.)

 

Iguaria de maior luxo, sim. Mas tão apetitosa quanto as que curti em locais feitos pro meu bico financeiro de classe média baixa. Exemplo disso foi o carneiro ao forno – degustado com um tinto beaujolais ordinário de nome Chiroubles – no simples Le tire-bouchon, da parisiense Rue Descartes, ao lado da pracinha da Contrescarpe. Bem como o frango a passarinho do popular O gato que ri, no paulistano Largo do Arouche. Ou o robusto cabrito com arroz à grega e farofa do Restaurante Dom Pedro, na Rua do Imperador, no Centro deste Recife de desigualdades e apagões.

Já as lembranças mais gratificantes vêm de comidas feitas em casa. A começar com a materna sopa de feijão, acompanhada de pão crioulo e afeto. Assim como a almôndega servida com macarronada coberta de colorau e queijo ralado, que mamãe fazia aos domingos. E a terminar com o inigualável filé ao molho de soja e gengibre que Maria Áurea, a minha mulher amada, tem o prazer de preparar pra mim. Ou, às vezes, para uns parentes e amigos convidados. Porém, no sabor desse prato vai o ingrediente essencial, indelével e indizível da receita: nosso casamento de 33 anos, cheio de carinho e companheirismo pelo mundo afora. Daí, com tal périplo gastronômico e breve perfil amoroso, será que ainda me falta alguma coisa para ser feliz? (Imodestamente, acho que não.)

 

*Escritor

afalkao@hotmaill.com


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