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Gabrielle e Antoine 2

 

Emerson Sanders *

 

Gabriele e Antoine se conheceram por acaso. Coisa do destino, como diriam alguns. Ele, que é deficiente visual, sempre fez o mesmo caminho duas vezes por semana para a Escola de Música São Thomás, de Estrasburgo. Ela ia todos os dias para o colégio, que fica no mesmo prédio, na Rue de La Monnaie.

Guiando Antoine pelo caminho, Gabrielle ia descrevendo a paisagem, as pessoas, como estava o dia... Antoine lhe fazia cada vez mais perguntas.

– Descreva-me esta senhora que toda vez me saúda com um vibrante bom dia.

- Forte, na casa dos 50 anos, ela sorri para todos que passam, apesar do infortúnio de ter dificuldade para caminhar, devido a uma doença na perna. Estende a mão também na esperança de receber alguns trocados. Sua aparência é a de quem veio do leste europeu, descreveu ela.

- Ah. Então vou separar umas moedas para dar-lhe quando me der bom dia, disse ele.

Com o passar do tempo, Gabrielle se tornou os olhos de Antoine, que não parava de perguntar-lhe sobre o que ela via.

- Você é a luz dos meus olhos, disse ele, completando: “Um novo mundo se abriu para mim depois que te conheci”. Gabrielle, por sua vez, respondeu: “E você é uma ótima companhia, com esse surpreendente senso de humor e essa alegria de viver”.

Ao longo do percurso, que durava em torno de dez minutos, eles conversavam sobre tudo. Desde as relações familiares às atualidades na política, apesar da repulsa que o tema provocava nos dois. Gabrielle descobriu que Antoine era órfão. Seus pais haviam morrido num desastre de automóvel quando ele tinha pouco mais de dez anos. Depois de alguns anos na casa de uma tia, ele, já com 18 anos, resolveu morar sozinho no casarão da família, mesmo com os protestos da tia Amelie. “Já sei me cuidar”, dizia sempre. Realmente, com o tempo, Antoine desenvolveu habilidades que pouca gente achava que ele era um deficiente visual. Fazia praticamente tudo sozinho, desde cuidar da própria roupa a ir comprar pão na padaria do seu Didier.

Em pouco tempo a amizade entre Gabrielle e Antoine se tornou forte, a ponto dela começar a frequentar sua casa. Nestas ocasiões, os dois costumavam ouvir música. Ele aficionado em música clássica. Ela em música pop, com uma queda por rock. Esses gostos díspares não foram empecilhos para que ambos descobrissem que a música é a mesma, com sete notas, tons, harmonia e melodia. O que diferencia é o estilo de cada uma.

À medida que descobriam um ao outro, foi brotando ali uma paixão, algo que eles não sabiam controlar. Então veio o primeiro beijo, abraços intermináveis e juras de amor eterno. Aos poucos já não dava para Gabrielle esconder dos pais o sentimento que tinha por Antoine. Só de pensar em contar-lhes dava calafrios na menina.

Até que chegou uma hora em que Anne disse para a filha:

- Precisamos conversar.

* escritor

 

 

Esqueçam o Lula...

 

Luiz Carlos Borges da Silveira*

 

Está ocorrendo fato inusitado – e preocupante – em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fato este relacionado com sua situação de político preso e do ano eleitoral.

Deliberadamente ou não, há campanha induzindo a ilações de que existe intenção de transformá-lo em mito e injustiçado sugerindo que seja ele o único capaz de dar jeito na situação do país. Daí a massiva repercussão de qualquer assunto que a ele tenha ligação, mesmo que irrelevante. A militância, partidários, admiradores e sua defesa jurídica têm o direito de promover o movimento, mas há outros estratos engajados, além da mídia disposta a fazer papel de caixa de ressonância - desses, não se sabe o interesse. E até mesmo a avaliação crítica acaba favorecendo o interessado, é a repetição da velha máxima: ‘falem mal de mim, mas falem’...

Lula é um político preso, não um preso político como forçam em repetir na busca do convencimento impossível. Foi investigado, indiciado, julgado e condenado em ação penal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, delitos praticados quando estava no cargo, em processo cercado de todas as garantias constitucionais, ou seja, um processo legal em primeira instância e depois confirmado por colegiado de segunda instância, que inclusive ampliou a pena.

Tentar fazer do ex-presidente um inocente é negar os delitos cometidos e aceitá-los como licitudes, é afronta à Justiça e tentativa de invalidar a operação (Lava Jato) de combate à corrupção que o levou à prisão.

Essa campanha política em favor de Lula é algo muito perigoso porque pode resultar na formação de falso mito com reflexo nas pesquisas eleitorais, como se tem notado, gerando um círculo vicioso: o movimento insufla os descontentes cujo pensamento se reflete nas consultas; a posição de liderança do político preso fornece combustível ao movimento, que influencia as pesquisas...

Lula é, ‘ipso facto’, um condenado e nessas condições não pode e não deve ser candidato (certamente não o será), pois do contrário seria revogar a lei e todos os esforços de combate à imoralidade e a corrupção na política e na administração pública.

Se o ex-presidente está preso é porque delinquiu... e há ainda outros processos bem mais ‘pesados’ do que esse pelo qual foi apenado. Além disso, é bom lembrar que Lula da Silva é reincidente, pois em seu primeiro mandato ocorreu o caso de corrupção conhecido como mensalão, que não o atingiu diretamente, mas deixa evidente que ele sabia e endossou. Assim como a Lava Jato, que ele tenta denegrir e afirma que nada sabe sobre os crimes apurados nessa investigação que parece não ter fim, dada a extensão da teia que onerou não somente a Petrobras e o BNDES como outros segmentos da administração pública e da iniciativa privada que viviam em estado promíscuo. Para um chefe de governo afirmar que não sabia de nada do que se passava nos altos e médios escalões do governo é passar atestado de completa alienação – ou de conivência.

Portanto, esqueçam Lula! deixem-no a cargo de quem de direito, a Justiça. Criar factoides até a partir de uma carta simplória significa não agir de boa-fé. Basta a insana atuação da defesa que impetra recursos em profusão, todos sem base, tanto que são sistematicamente negados. Além disso, a banca advocatícia de Lula abona recursos de pessoas comuns (aparentemente ‘laranjas’), como aconteceu no início do mês de julho, quando o STJ julgou 146 recursos, levando a presidente do órgão, ministra Laurita Vaz, a escrever em um despacho que "o Poder Judiciário não pode ser utilizado como balcão de reivindicações ou manifestações de natureza política ou ideológico-partidárias". A cada recusa da Justiça a defesa, lideranças, militância e amigos petistas reverberam os refrãos de que Lula é um injustiçado e que há plano específico para evitar que ele venha ser candidato novamente, apoiando seus argumento nas pesquisas, o que certamente acaba refletindo na campanha.

O bom senso diz que se deve tirar Lula do âmbito político-eleitoral e deixar que a Justiça decida, sob a égide da lei, à luz dos fatos.

Acredita-se que haverá sucessivo e amplo leque de recursos forçando o registro da candidatura de Lula. Espera-se da Justiça Eleitoral firmeza para não relevar a repercussão partidária e decidir com base na lei (da Ficha Limpa inclusive) e do precedente jurídico-penal do candidato.

Em outubro o Brasil vai às uras para escolher o próximo presidente. É desejável que o processo não venha a ser conturbado pela situação de quem perdeu o direito de participar das eleições; que os eleitores tenham discernimento para escolher um candidato ficha limpa, elegê-lo e apoiá-lo, para que o país volte a trabalhar em paz política.

Esqueçam Lula e suas bravatas, esqueçam as chicanas jurídicas de sua defesa, esqueçam a militância partidária. Dar curso a factoides é colaborar para ambiente e clima inadequados e impróprios que em nada contribuem, somente servem a quem deseja instabilidade e conturbação.

 

* Empresário, médico e professor. Foi Ministro da Saúde e Deputado Federal. 


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