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Artigo

A Primavera de Praga

 

Antonio Falcão*

afalkao@hotmail.com

 

Há exatos 50 anos, o afã da vida em voar batia a ânsia de Ícaro. Por essa extensão, para escrever sobre a ex-Tchecoslováquia (hoje, República Tcheca), o melhor é reunir tudo em um perfil de fatos cronológicos. Assim:

Em 1918, o grupo La Maffia (!) criou a binacional Tchecoslováquia, unindo a cultura da Eslováquia (capital Bratislava) com as dos tchecos da Boêmia (capital Praga) - que durou até 1993. Em 1935, a URSS e o novo país firmaram pacto contra a ameaça nazista - isso ficou no papel, pois as tropas de Hitler os invadiram. Resultado: 600 mil tchecoslovacos mortos pela Paz. Três anos pós-Guerra, o Partido Comunista - por via parlamentar! - introduziu um socialismo à moda soviética. Em 1956, com Kruschev à frente do 20º Congresso do partido da URSS, veio a desestalinização, que os PCs (inclusive o brasileiro) batizariam de "deformações do culto à personalidade". No Exterior, isso definiu a aproximação gradativa com o mundo ocidental e o fim do monolítico bloco socialista - teoricamente, a chance de cada povo edificar o socialismo de acordo com condições locais, até reconhecimento de outros rumos que não os da URSS (tudo desmentido na invasão da Hungria). Em 1967, escritores da Tchecoslováquia disseram no Manifesto de 2.000 Palavras: "Desde o começo deste ano, estamos no renascimento de um processo de democratização. Isto começou no Partido Comunista... Este processo não teria podido começar em outra parte". Claro - lá, o PC era a única força política existente...

A seguir, o eslovaco Alexander Dubcek substituiu Novotny no comando partidário e um proibido sonho de liberdade passou a ser sonhado pelos comunistas. Durante o ensaio das reformas - refletindo as barricadas eróticas de Paris -, veio o Maio de 1968. Estudantes cabeludos pediam mudanças e, saindo da apatia, os trabalhadores a exigir sindicato livre. Plena de clivagens ideológicas e sociais, iniciava-se a Primavera, para superar um sistema burocrático, apoiado mais em conteúdo de virtude que competência. E, a 20 de agosto - no verão -, tanques soviéticos castigariam Praga por esboçar no socialismo outras trilhas que não as deles, destruindo à força desejos que poderiam ser vividos. Desse modo militarista e burro, uma Revolução pagou por ser revolucionária - o velho venceu o novo. E o velho, como se sabe e viu, morreria com a URSS. Dói...

Em 1993, revi a belíssima Praga, serpenteada pelo rio Moldávia e cheia de miséria, o que não havia antes. No hotel, ouvi de um porteiro que naquela Primavera fora estudante e filiado ao ex-PC: "Se nossa experiência tivesse triunfado, bem como as tentativas revolucionárias no resto da Europa e nos EUA de 68, estaríamos diante de uma prática histórica superior às da burocracia e do capitalismo". Nisso, curiosa, a minha mulher quis saber qual a explicação do Exército Vermelho em invadir a ex-Tchecoslováquia. "Ainda ignoramos. Tanto que, à época, com fé no impossível, pichávamos os muros e os corações indagando a palavra Proc" - findou o porteiro, então um cinquentão reumático, diplomado em francês e marxismo.

(Na língua tcheca, “Proc” significa Por quê?)

 

*Escritor.


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