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ARTIGO

 

Março de 2018

 

Lembranças, Jaburu

 

Antonio Falcão* – afalkao@hotmail.com

 

Fernando Antônio Ferreira de Medeiros – Jaburu. Para nós, os amigos, o único sentido da morte é ela não ter sentido nenhum. Mas a sua – há 19 anos – fez esta vida menor. Menor por ter perdido um da sua estirpe; menor pelo social que você – surrupiando do sonho – quis melhorar no mundo (ó, pássaro da utopia!); ínfima a vida sem alguém que nos instruía a não mostrar passaporte nas fronteiras do incerto psicológico, estético ou afetivo. E que rimou sonetos, intuiu os mistérios das prosas, fez-se inquilino da música e dos cantores, boêmio que não podia ver bar, madrugada e violão desacompanhados. Enfim, como você foi: o homem que qualquer um de nós gostaria de ter sido.

Quem dessa nossa desgarrada época olvida a classe e o ímpeto do centroavante virtuoso que você compôs em campo? Ou seu papo instigante e ágil? Bem como a leveza da mão nos copos e a ternura com as mulheres que amou. Sem pieguice, bom pai. E, antiacadêmico, ótimo economista. Dos seus tédios, velho Jaba, o maior era a rotina (exceto quanto ao hábito de extrair do cigarro tragos sôfregos – estes, vis e sorrateiros, atraiçoaram-lhe aos 56 anos, travestidos num caranguejo escroque e mesquinho, roendo os pulmões).

Mas a recordação mais grata vem de quando – rapazes do bairro de Campo Grande e do Ginásio Pernambucano – éramos puros, pobres e poetas. Tudo tanto e quanto e como aquele Carnaval dos anos 60, com a avidez em ver nos salões do Náutico as moças para namorarmos. Da nossa turma de lisos, só você era sócio do clube – quite com a tesouraria. E foi sua a ideia de que escalássemos um muro que desse no interior da sede alvirrubra dos Aflitos. Além de sugerir, veio conosco e invadimos um dos casarões da Avenida Rosa e Silva, justo na imediação da quadra de basquete dos timbus.

No quintal, cercou-nos um vigia munido de revólver e porrete – lapa de negro que dava dez de qualquer de nós. Nisso, Clóvis (que era taludo e cabo da Aeronáutica) fugiu, deixando-nos – com mais dois – sozinhos na batalha. Pior: o vigia deu-me uns tabefes e uma gravata, isso até você partir em cima dele. Então, pra se defender, o crioulo me largou e deu tiros de espoletas ao léu. Como pelos disparos você riu de segurar a barriga, o vigia lhe plantou o porrete. Mas, bom de luta, você foi escorando os golpes no braço, dando-nos assim tempo de correr e alcançar de novo a Rosa e Silva.

Na frente da sede do Náutico, seu companheirismo se inteirou quando exibiu a carteira de sócio ao porteiro e – antes de medicar o braço – trouxe lá de dentro um diretor do clube (Codó, seu colega de Banorte), que nos autorizou entrar. Tudo no peito. Ou do peito, que é o lugar de onde, cativa, vem a solidariedade humana – talvez a única virtude que não se perde de vista e que se gruda às lembranças como um retrato sem cor nem data. Por tudo isso – e mais o que não coube aqui – nós continuaremos insistindo em viver cheios de graça. E se possível a ser fiéis à sua memória, Jaburu.

Agora e na hora da nossa morte, adeus.

*Escritor.


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