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Artigo

 

O bairro da mentira

 

 

Antonio Falcão*

 

afalkao@hotmail.com

 

No bar, papeando sobre mentiroso, falei que em Boa Viagem miserável como eu se acha pobre; pobre crê-se classe média; classe média se vê rico; e rico rareia. Por isso, lá, farsante se vangloria por bens, burrice, nada, ódio, recalque, status, o escambau. Esta tese foi ilustrada por seis boêmios desse meu bairro recifense, todos eles fissurados pela Grécia Antiga. E assim:

Segundo V, em Sampa mentiroso se diz ´executivo´ de empresa privada a R$ 60 mil mensais. E no Nordeste ´barnabé´, tipo Hermeneuta, autárquica de Tróia que mama R$ 8 mil por mês. (Em off, o útil V pesquisou que na sinecura dela este salário de bosta é teto para os de nível universitário e a falaz troiana só tem ensino médio!) Melhor, essa intérprete de Hermes é aposentada por outra mamata – também nociva ao País –, onde entrou sem concurso. E, pior, arrombando a porta dos fundos com o imoral pé-de-cabra do apadrinhamento. Eh, Hermeneuta! Coisa da mitologia escroque;

Já A cedeu o falido microempreendedor Oráculo. Este recalcado, que não soube gerir a si mesmo e quer formar gestores, supõe-se divindade a qual se deve consultar sempre, E à-toa! Daí, rindo, A o detonou: “Quando muito, Oráculo ´gere´ o ocultismo vulgar. E ´forma´ (nas sessões de psicanálise do seu doentio fracasso existencial) a opinião atrevida de uma faxineira analfabeta”. Coisa helênica e freudiana do além;

Na rua de L tem é gente encalhada... Lá, vê-se damas sós, clãs com gerações no caritó, sonhos vazios, amores escorrendo pelo esgoto... E as de saia: “É a minha opção, machistas”. Face ao que, sutil, L intui que a fila de pretendentes não anda – desembesta, voa... E, católico, roga o impossível a Santo Antônio. (Por analogia, caros leitores ateus e crentes, oremos!) Coisa olímpica de desamor, pânico e solidão;

De gancho, E expôs a vitalina Pitonisa. Exitosa no setor privado, essa tebana vai soerguer o governo fazendo concurso. Aí, E disse: “Com invejável currículo e malgrado a crise fiscal, Pitonisa galga qualquer cargo público. Até o de ´aspone´ de repartição. Ou, oxalá, margarida-coletora de lixo”. Coisa espartana, realista e veraz;

Ih, R citou Andrógino, o daquele pé na bunda da firma onde mentiu! Hoje, ele se acha ´expert´. Só que no tititi do quiosque de R, na praia, é “passeante”. Exato: Por uns trocados como babá e ama-seca, Andrógino ´passeia´ no calçadão de Boa Viagem com os cachorrinhos fofos das madames. Coisa grega da fome nordestina; e

Y trouxe Fulô, o escriba de atas de reunião, pego quando a coroa alfabetizada do prédio viajava. Ele perfez 42 dias urdindo um texto ofensivo à língua, à verdade e à lei. Isso, antes de execrar a expressão ´ghost-writer´, imputada à coroa. (Para Fulô, “doença venérea”, em inglês.) E sussurraram ´o síndico não viu´. No que, na lata, Y rebateu: “Esse inútil nunca vê nada. E ignora tudo”. Coisa do faz de conta de Atenas.

Nota: Feliz 2018 aos que me toleram há quase 18 anos neste Jornal do Grande Recife.

 

*Escritor.


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