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ARTIGO

 

Vinicius e Rolando

 

Antonio Falcão *

afalkao@hotmail.com

 

´Outubro ou tudo, outubro ou nada´, tempo fiel à sensibilidade. Nele, dois lírios: Vinicius e Rolando. Às vezes, esqueço que partiram, pois ´os náufragos não morrem, vão pescar´. Porém, em 9/10/1993 – quando, en passant, eu falei sobre eles no recifense Jornal do Commercio –, ao menos Rolando vivia.

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Marcus Vinicius Cruz de Melo Moraes – nome completo do Poetinha, carioca da Gávea, homem do mundo e, sobretudo, mundano. Aos 7, "poeta sem poder remediar" (de Lorca), as letras atravessaram o seu caminho na Ilha do Governador. Depois, foi crítico de cinema e diplomata. Místico, também, até se dar à vida livre, à sua gente, aos bares... Nessa época, o drama social brasileiro exigiu e esse grande poeta – denunciando – fez “O operário em construção”.

Vazado do Itamaraty em 64, cantou nos palcos populares, Drummond viu nele o único poeta a viver de poesia etc. Assim, foi do lirismo à MPB, ao cinema ("Orfeu da Conceição"), ao teatro engajado ("Pobre menina rica"), às mulheres ("Ah, minha amada de olhos ateus...”). Isso sem olvidar que, em busca do justo, Vinicius de Moraes foi socialista: "Senhores barões da terra/ preparai vossa mortalha/ porque desfrutais da terra/ e a terra é de quem trabalha...".

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Com o Golpe, eu dei no pé daqui e com a cara em Sampa – lá, vivi anos. Nesse desterro, como otário aprendi a trabalhar. E revisei textos na Difel, onde conheci Rolando Roque da Silva, meu chefe, ótimo tradutor, poeta de 10 livros sentidos, homem solidário, cidadão exemplar, paulistano do Brás...

Rolando foi amigo da famosa Pagú, linda! E, internacionalista, no Socorro Vermelho com ela fez agitação. Em 2017, ele faria 114 anos. E no seu "Canções de canto chorado" (Clube de Poesia, SP/93) isto, atual e Lava Jato: "No jogo das circunstâncias/ perder tem sido o meu ganho/ quase desde que nasci./ Perdi no amanho da terra/ antecipando colheitas/ que, afinal, jamais colhi.../ Perdi meu voto confiante/ na suposta idoneidade/ de uns cidadãos que elegi./ Perdi a fé nos princípios/ nos preceitos normativos/ que com ardor defendi./ Perdido o senso das coisas/ ando à volta de mim mesmo/ de quem também me perdi".  Ou isto: "Bem no meio do caminho/ de Drummond tinha uma pedra.../ Ora bem! O pretérito sugere/ que ele transpôs a barreira/ ou conseguiu removê-la/ que conheceu o que havia aquém da pedra ou além... No meio do meu caminho/ tinha também uma pedra... Ai de mim, ainda tem!"

PS: Esses versos resgatam o estudante das USP e PUC/SP de 68, aquele a quem Rolando ensinou a ler. Por isso, aqui e à sua memória, agradeço. Dá-lhe, Poeta, “filho de Carlos, o operário, no caminho de uma jovem tecelã”!

 

 

*Escritor.


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