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João Moraes

Tico de Bigobal

 

João Morais de Sousa

 

*professor da UFRPE e Membro da Academia Igarassuense de Cultura e Letras

 

Bigobal desenvolveu um hábito de pegar no alheio sem pedir permissão. Às escondidas pegava nos roçados o que era menos comum: jerimuns, melancias e melões cobertos (os donos diziam esconder das raposas). Nas vazantes, batatas-doces. Não catava feijão e/ou quebrava milho nem nos roçados distantes das casas porque demorava e os donos podiam ver. Um flagra famoso foi quando tentou pegar um cacho de banana maçã, atrás do açude do meio, de Zé Mamede. Na hora em que segurou o cacho com uma mão, inclinando a bananeira, e com a outra levantou a foice, Zé Mamede gritou:  “Ehhhhh”. Ele soltou de supetão  o cacho e saiu em disparada gritando: “Aiiiiiii”. Jogou-se por baixo da cerca de sete arames, levantou-se do outro lado e continuou correndo se desviando das juremas pretas e marmeleiros. Pulou tôcos e pedras sem olhar para trás. Dois dias depois se encontraram e se cumprimentaram normalmente. Não tocaram mais no assunto e Bigobal deixou de visitar o roçado de Zé Mamede.

Bigobal dizia não trabalhar para os donos da terra. Só nos roçados dos moradores.  Orgulhava-se em não ter patrão. Até a casa (de taipa) fez no aceiro da BR 230. Afirmava ser terra pública e que ninguém tomaria. Só o governo federal. Mas ele não se interessaria pelo seu casebre. Sobrevivia fazendo carvão, tirando lenha nas margens da BR. Aqui e acolá caçava (preás e tejus nos anos de abundância) e pescava sem convicção nos açudes do meio e da várzea (traíras e piaus). A caça e a pesca também vinham sem convicção. A sogra repartia a minguada feira com a filha. O sogro não gostava. Zangado, dizia que ela acobertava a vagabundagem do genro.

Bigobal tinha um casal de filhos: Maria de três anos e Tico de sete. O menino era conversador e envolvente. Certo dia, visitando uma tia na cidade, olhando o quintal do vizinho viu uma pinha madura e umas mangas espadas. Nessa hora a tia perguntou o que ele faria quando crescesse. Ele respondeu: "vou aprender a voar para pegar coisas como aquela pinha e aquelas mangas ali". A tia exclamou: "meu Deus! Igual ao pai: já pensa em pegar no alheio". Tico respondeu: "Deus me livre, painho só vive cortando jurema, fazendo carvão e não tendo nada. Eu quero é voar para ajudar painho e fazer mainha feliz!”

 

Preso às precárias condições de vida do Sertão e sem esperanças de mudanças, Bigobal nunca se submeteu ao jugo dos donos da terra. Mesmo vivendo na pobreza, Tico encobriu muitas pancadas sonhando com um mundo melhor.


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