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ARTIGO

Os bagulhos da lembrança

 

Antonio Falcão

 

afalkao@hotmail.com

 

Mário Florêncio foi o médico que jamais deu plantão. Mas quando fazia residência em São Paulo, e quebrando galho de colega, pernoitou num pronto-socorro. E, lá, chegou um cara rebentado, de quem Mário quis saber o problema. “Tenho dois: o ´a´ e o ´b´. Prefere qual?” Vamos ao ´a´, chutou o médico. “Ah, este é que sou casado e não me dou com ela...” Aí, o ´plantonista´ interrompeu: Isso não é comigo; leve ao psiquiatra. E o ´b´? Foi a glória do paciente: “Agora, sim, vem o que me angustia... Sou motorista de táxi, mas minha vocação é ser da Academia Brasileira de Letras”, abriu-se. Mário riu e, direto, perguntou como se deu o desastre que o acidentara etc. E o original paciente, numa boa: “Ora, pensei que o senhor quisesse saber o meu problema...”

 

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O ex-deputado Hugo Martins Gomes (Guri) ouviu isto do finado técnico de futebol e jornalista João Saldanha. Aquele timaço do Botafogo do Rio veio ao Recife e, no intervalo da preliminar, chegou ao vestiário da Ilha do Retiro. Lá, descansando da fria do primeiro tempo, estava o timeco do Íbis, Então, esforçado, o treinador nordestino tentava instruir seus atletas. Só que a moçada nem aí, toda ela, admirada, olhando os cobrões: Manga, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Quarentinha... Nisso, o pernambucano se dirigiu ao técnico do Rio e desabafou: “Olhe, seu João, não há cambada mais ingrata que essa... Hoje, por exemplo, até laranja para eles eu trouxe. E paguei do meu bolso! Agora, os mal-agradecidos só querem saber dos seus jogadores. Dói ou não dói?” (Saldanha não pôs isto no seu belo livro "Os subterrâneos do futebol", Ed. Tempo Brasileiro, Rio/1963.)

 

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Com tal título, parte desta matéria saiu no recifense Jornal do Commercio – onde escrevi 27 anos ininterruptos, até 2015 –, de 18/11/1993. Aqui, ela homenageia o finado Mário, sobre quem falei na última edição deste Jornal do Grande Recife. Além de professor de hematologia, ele foi um dos fundadores – e, também, diretor – do recifense Hemope.

O mesmo propósito carinhoso fez-me falar do amigo Guri, que convalesce desmemoriado. E, infelizmente, como candidato a saudoso.

No recém-lançado “Chão Asa Branca – causos, histórias e depoimentos”, Bagaço/2017, ambos são recordados por Ricardo Maranhão, o autor.

 

 

*Escritor.


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