Notícias da Web

Antonio Falcão

Sem ódio ou revanche

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

 

Antes da queima de fogos do último réveillon, Edu e Gil estavam em um bar lembrando a juventude, quando eram estudantes secundaristas e militavam na esquerda. Assim, entre risos críticos, eles falaram à beça do idealismo que fazia da atividade política uma espécie de religião com todos os princípios, deveres, hinos e dogmas imagináveis.

Aí, Gil disse: “Em 1964, meu primo apolítico frequentava uma loja maçônica junto com tiras de polícia e milicos afinados com a ditadura. E, lá, soube que X (aquele que, apoiando-se no nosso grupo, saiu candidato a um posto eletivo onde morava) era um agente infiltrado nas organizações esquerdistas. E nós, babacas, o tínhamos como companheiro, veja só. Tanto que, para elegê-lo, fizemos comícios, panfletagens e visitas a eleitores, lembra?” Edu confirmou e expôs que nunca confiara nele, pois via em X um pulha sem cacoete ideológico. “Tanto que, quando estive em cana, flagrei-o bem vestido e barbeado a falar amistosamente com o delegado chefe da ordem política e social, mostrando-se também íntimo dos demais esbirros. Pior: meses depois que saí da cadeia, eu ia de carro por um subúrbio e o vi bebendo com vários policiais num boteco. Por sinal, dois dos elementos que o acompanhavam me torturaram bastante. A partir de então, perdi-o de vista e, agora, acho até que já morreu.” Gil também admitiu isso, mas ponderou que, há anos e financeiramente arruinado, X se fizera passar por ex-preso político submetido a maus-tratos e requereu indenização ao governo. Completando: “Hoje, apesar de tudo, estou certo que pobres-diabos como ele e seus chefetes nunca foram peças importantes da máquina ditatorial. Para mim, na condução efetiva do regime, expressivos mesmo eram a embaixada dos Estados Unidos, umas três dezenas de oficiais generais de peso das nossas Forças Armadas e os empresários despolitizados do País. O resto – a então grande mídia, políticos de direita, arrivistas, dedos-duros, puxas-saco, torturadores et caterva – era fichinha. Assim, por ter tal entendimento, eu vejo excrescências como X sem ódio ou revanche.”

Com a concordância de Edu, restou aos dois brindar o ano-novo e prometer na despedida se verem mais. A seguir, os quase septuagenários se abraçaram dizendo que o essencial era viver no Brasil democrático. E povoado por gente capaz de perdoar certos energúmenos.

 

 

*Escritor


COLUNAS


OPINIÃO