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ARTIGO

Mário, mais um a menos

 

Antonio Falcão *

 

afalkao@hotmail.com

 

O talentoso Ricardo Maranhão me expôs, em maio de 2017, o projeto deste livro sobre a granja Chão Asa Branca e os que a frequentaram. A seguir, falamos de nossos mortos, detendo-nos na perda mais recente: Mário Florêncio. Este foi, disparado, desfalque inestimável nas fileiras daqueles que compõem o que há de melhor na humanidade. A partir daí, nós desandamos a falar da fina ironia do finado. Inclusive do que ele disse quando, na pelada, viu-me tentando em vão roubar a bola de um rapaz que tinha, à época, a metade da minha idade: “Para que tanto ímpeto, Toninho, se nós não temos nenhum.” Ou de ironizar a própria compleição física: “Alguém magro assim como eu, quando cai em si, cai fora.”

Outra dele, sobre a qual nunca escrevi, vem de 1977, quando chegou a Paris para se pós-graduar em hematologia, sua especialidade médica. Lá, eu estava há muito e servi de guia para que Mário escolhesse o bairro de aluguel mais ameno, que fosse próximo da escola e onde sua mulher, Jane, pudesse usufruir do que a capital francesa tem. Afora isso, como o vento da anistia política soprava e éramos inimigos ferrenhos da ditadura militar que então infelicitava nosso País, íamos a manifestações de outros democratas brasileiros. Assim, um evento fora programado para a Casa do Brasil, na Cidade Universitária – onde eu vivia na Maison Internationale, o prédio mais imponente da Cité. No hall da Casa, um conhecido disse que aquilo era organizado pelo ´pessoal do lado de Maurílio Ferreira Lima´, o nosso compatriota e deputado cassado, com exílio na Argélia, como tantos outros, incluindo Miguel Arraes, em quem decerto via o traço sutil e indelével do coronelismo nordestino – a expressão, aqui e agora, é minha. Mário ouviu e só comigo comentou: “Puxa, Maurílio já é lado...” Quando revi o ex-parlamentar em Paris, falei disso do amigo. Maurílio caiu na gargalhada e achou a sacada genial. Tanto que, em 2002, quando anistiado no Recife prestigiou o lançamento de um dos meus livros, disse com o riso habitual: “Diga a Mário Florêncio que, hoje, eu não sou mais sequer lado”.

Porém, a vida – ou a morte, sei lá – é tão irônica quanto o nosso Mário Monteiro Florêncio. Este, morreu em maio de 2017, dois dias após o falecimento do boa-praça e patriota Maurílio. Acontece. E como dói!

 

PS: Esta matéria compõe o livro “Chão Asa Branca – causos, história e depoimentos”, de Ricardo Maranhão, Edições Bagaço/2017. 

O livro foi lançado no último dia 19 de setembro e está nas livrarias recifenses.



 

* Escritor


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