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Até a última chama

Antonio Falcão *

 

afalkao@hotmail.com

 

Na Espanha, a artista plástica Elza casou com um empresário e foi mãe duas vezes. Mas em 1981, com os filhos adultos, o marido morreu, o que a levou a se dedicar à criação artística, enfurnando-se no ateliê instalado nos fundos da mansão em que vive. Isso até conhecer o divorciado Pepe, professor e crítico de arte, homem bem-humorado com quem se identificou intelectual, política e socialmente. À parte tais elementos que os fizeram ótimos amigos, uma atração física descomunal os tornou amantes com pouco tempo, levando-os naturalmente a coabitar.

Desde aí, no verão europeu, eles tiravam férias de dois meses, sendo cada viagem uma nova e tórrida lua de mel. Por isso, foram a várias partes do mundo – inclusive São Paulo, Rio, Salvador e Recife, cidade onde viram uma mostra expressiva do que há de melhor das nossas artes plásticas. Porém, 14 anos adiante, quando Pepe se aposentara do magistério e curtia as viagens com a parceira, teve que extirpar a próstata cancerosa. E, a seguir, desgraçadamente Elza também adquiriu uma enfermidade que a deixou paralítica da cintura para baixo, obrigando-a a se locomover em cadeira de rodas. Embora tais fatos tenham zerado a vida sexual deles – e os impedido de viajar –, o amor e a amizade se enraizaram mais. Tanto que, após os instantes de criação de um e outro, toda tarde, com ele ladeando a cadeirante, os dois vão habitualmente ao parque próximo de onde moram. Assim, enquanto passeiam, Elza e Pepe trocam juras de amor, opinam sobre tudo e se acariciam com ternura. Isso, além de encontrarem com outros compatriotas para deplorar a estagnação econômica da Europa, fato que levou em 2014 – 50% da juventude espanhola ao desemprego e à falta de perspectiva a curto e médio prazos.

Hoje, por força dessa debâcle continental, um neto dessa senhora sobrevive no Recife e confessa que os idosos seguem apaixonados. E que, aos 86 anos, a artista define esse sentimento entre eles como mais belo e valioso que tudo que pintou ou esculpiu. Isso sem contar que os dois garantem ir assim até o apagar da última chama de suas vidas. Daí, o rapaz afirmar em voz alta, como se estivesse diante da parenta: “Deus lhe ouça, vovó.” E dizer em off e envergonhado que torce para que a paraplégica não saiba que a Holanda humilhou a Espanha na última Copa do Mundo.

Pois é, disse-lhe eu intimamente – e ainda doído pelos 7 a 1 dos alemães sobre nós nessa Copa –, tomara que a artista plástica ignore, sim.

 

 

*Escritor


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