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ARTIGO

 

Foi assim e paciência

 

Antonio Falcão*

 

afalkao@hotmail.com

 

Aos 38 anos, fora do peso e de beleza comum, a bem-sucedida profis­sional de saúde Baiana (nome fictício) se deu conta que as amigas estavam casadas ou namorando. E ela, a contragosto, vivia só. Mas um moço atraente a olhava insinuante toda vez que abastecia o carro. Pensando nele, ao sair do consultório, ela foi ao posto de gasolina e quis saber a que horas o frentista largava do trabalho, convidando-o para jantar no dia se­guinte.

Todavia, sem constrangê-lo, ela elegeu um restaurante simples, onde viu que o rapaz, 8 anos mais novo, apesar da baixa escolaridade era inteli­gente e, a seu modo, meigo. A partir de então, durante três meses eles fo­ram juntos a motéis e aprofundaram o namoro. Até que, empolgada com o relacionamento amoroso, Baiana o convidou para morar no apartamento de cobertura onde vivia num prédio de classe média alta.

Coabitando, conheceram-se melhor. Ele pensava em largar o em­prego de frentista e voltar à escola. E ela, vendo no amante um vulcão a lhe incendiar, sentia mais e mais algo infatigável e inventivo enlouquecendo-a de prazer e paixão. Assim, antes de um ano de convívio, Baiana lhe confes­sou que queria ter filho. E, após um dia refletindo sobre a proposta, o moço sem rodeio disse curto e grosso: “Para fazer menino, convém casarmos no papel, querida. Afora isso, pra sair do posto e estudar, necessito ter do que viver, inclusive como cobrir os estudos. Resumindo: quero de você, além do casamento no cartório, um carro zero e uma mesada mensal de R$ 6 mil. É pegar ou largar.” Aí, ferida no amor próprio, ela desfechou fulminante: “Você não passa de um reles gigolô. E, para sua frustração maior, vai sair da minha casa agora. Arrume já a mala que lhe levarei, mesmo sabendo que é politicamente incorreto, para onde você nunca deveria ter saído.” E ao deixá-lo na comunidade pobre em que vivia com a família, da boca pra fora ela advertiu: “Darei ordem aos seguranças da portaria para não lhe permitir entrar no meu prédio, fique sabendo.”

Dias adiante, ainda magoada pelo ocorrido, Baiana contou tal histó­ria com detalhes íntimos a uma das sócias do consultório. Contudo, apesar dos pesares, admitiu que continuaria buscando alguém. “Vida que segue”, afirmou. E, fechando o que confidenciara, expôs com realismo: “Foi assim, colega. E é uma pena. Mas paciência.”

 

* Escritor.


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