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O Lula que faz falta

Antonio Falcão* – afalkao@hotmail.com

No País perdedor da Copa em casa em 1950 e 2014, a falta do jornalista Lula Carlos é sempre sentida por todos nós. Dele – que nasceu Luiz Carlos Lopes Pereira e foi, também, advogado e escritor – perdemos a fina ironia e a clareza bem-humorada dos textos de glorificação ou crítica ao futebol. Boa parte do que assinou foi na coluna “Dois Toques” do recifense Jornal do Commercio, onde se expôs com originalidade, talento e (segundo seus colegas de redação) bom companheirismo por mais de três décadas.

Mas neste Grande Recife vou falar do Lula que conheci na adolescência, quando jo­guei no Esporte Clube de Campo Grande, meu aprazível bairro. À época, ele era diretor de fute­bol do nosso time e assessorava a inteligente presidência do estudioso es­portivo Aldênis Teixeira. Isso afora dar apoio ao técnico Esquerdinha (ape­lido de Rodolfo Aguiar, empresário da construção civil e ex-presidente do meu Santa Cruz). Bem como – e sobretudo – pelos seus sábios aconselhamentos éticos. Uma lição inesquecível ocorreu quando o Esporte foi atuar na Usina Trapiche, em Sirinhaém. Antes da partida, o jor­nalista nos reuniu para dizer que o adversário contava com uns jogadores profissionais (creio que do América recifense). E que eles, coitados rapazes, iam à usina ganhar uma ninharia a fim de melhorarem o sustento de suas humil­des famílias. Portanto, que nós, estudantes de classe média, os respeitásse­mos – evitando gozação, insulto, drible humilhante etc.

Em 2004, Lula Carlos me pediu para escrever o prefácio do seu livro “Meus 50 anos de Cronista” (Comunigraf/Recife) e eu quis falar desse exem­plo de respeito humano, mas não o fiz. Agora, há 12 anos da obra editada – com orelhas escritas pelos talentosos Stênio José e Salomão Sales Couto, e contracapa de Arthur Carvalho, este dizendo ser Lula “caneta de ouro”) –, cumpro o intento. E, hoje, certo que o apolítico Lula de bom caráter era tão pernambu­cano e útil ao Brasil quanto seu xará e ex-presidente da República – o mais carismático dos governantes brasileiros. Melhor: que o escritor continua sendo a maior referência da nossa crônica esportiva. Além de modelo de honradez pessoal e jornalística. Essas entre outras tantas virtudes que me levam aqui a lembrá-lo com saudade. E a concluir que com Lula Carlos poucos homens podem, ousam ou devem se comparar.

 

* Escritor


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