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Mágoa e solidariedade

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com



Ao lado de uma morena e outra loura, a minha amiga estava num salão de beleza esperando atendimento. Aí, a primeira disse em voz alta, como que se referindo ao que lia numa revista: “Antes de se ocupar com o sumiço de Amarildo e a espionagem americana na Petrobrás, o Brasil deve­ria combater o homossexualismo, isto sim. Na Rússia, por exemplo, há uma lei contra os gays.” A seguir, expôs a irritação com paradas da diversidade sexual que ocorrem pelo País. Segundo ela, a polícia autoriza e dá proteção a isso. Pior: a mídia também tem culpa, pois cobre as passeatas e divulga “a sem-vergonhice que reúne gente de cor e pobre, um acinte à família”. Em seguida, falou que, no Espírito Santo, um sogro de 60 anos se apaixonara pelo genro de 37 e foram viver juntos. Como as duas apenas ouviam, a mo­rena as inquiriu sobre o que pensavam “do avanço da homossexualidade que não poupa, sequer, a bela jornalista Fernanda Gentil, da Rede Globo”.

Sem se alterar, a loura disse que, como democrata, católica e cidadã, aceitava qualquer orientação política, sexual e ou religiosa. No ato, a ho­mofóbica achou isso um absurdo e ouviu: “Absurdo seria se você não pu­desse dizer o que pensa e eu fosse proibida de opinar, como na ditadura.”

Como minha amiga assentiu com o que disse a democrata, a outra supôs que elas pensavam assim por ignorarem o homossexualismo na fa­mília. Nisso, calma, a loura esclareceu que, à parte sua solidariedade com as minorias, tinha uma filha lésbica, a quem ela e o marido apoiam. “Nossa menina é homossexual desde a adolescência, mas casou com um colega de faculdade e nos deu um neto. Depois, desfez o casamento numa boa e, di­vorciada, conheceu uma moça (por sinal, negra) com quem se juntou. Hoje, as amantes vivem felizes, são vitoriosas como profissionais na área de sa­úde e aceitas socialmente. De resto, ambas sempre foram pessoas gentis, pacatas e de bons caracteres.” Ouvindo isso e com ar de quem concordava com a loura, restou à morena dizer que, de sua parte, tinha mágoa dos gays porque fora largada pelo marido, caído de amor por um deles. Mas que iria rever seu entendimento a esse respeito.

Assim, vendo as duas conversarem com civilidade, minha amiga foi chamada pela cabeleireira, ficando sem saber a conclusão do papo. Porém, convicta de que nesse dia o preconceito perdeu uma adepta fervorosa.

 


*Escritor


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