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O último führer

 

Antonio Falcão*

afalkao@hotmail.com

 

Há muito, Zito casou com Inês, saiu do Nordeste e tem do que viver. Ele diz que Pio, seu filho, no cursinho pré-vestibular conheceu Eva, a única solteira das filhas dum industrial aposentado e viúvo. Como namorados, os jovens entraram na faculdade de medicina e no quinto período do curso ela engra­vidou. Daí, sem cessar os estudos, casaram. E, a pedido do sogro, Pio foi morar com Eva na mansão, onde nasceu Jó. De sua parte, Zito garantiu por mês uma ajuda para manter com dignidade o filho, a nora e o neto.

Todavia, com dois anos de convívio e se amando sempre mais, o ca­sal percebeu que o pai de Eva interferia em tudo, inclusive na opinião polí­tica de um e outro. Tanto que, provocativo, o viúvo falou que jamais vota­ria numa mulher pra ser presidente, governadora ou prefeita. E Eva e Pio apenas se entreolharam. Depois, sem quê nem pra quê, ele disse convicto e doutrinal que negros, índios, judeus e homossexuais eram seres desprezí­veis. De cara, a filha chamou-o de “o último führer nazista”. E o precon­ceituoso: “Dê-se por satisfeita, pois, pensando nos seus sogros, não incluí entre os desprezíveis a racinha nordestina”. Aí, o genro protestou e, na lata, disse a Eva que ali não morava mais. Ela quis acompanhá-lo, mas Pio pediu que ficasse, prometendo conversar melhor sobre isso na escola.

No dia seguinte, em comum eles decidiram que Eva e Jó viveriam com o pai dela de segunda à quarta-feira, indo ambos da quinta ao domingo pra casa de Inês e Zito a fim de ficar com Pio. Isso, além de se verem nas aulas. Mesmo mantendo a babá, em represália o führer suspendeu o plano de saúde de Eva e do neto. Daí, Zito os incluiu na assistência médica da sua família e reforçou ainda mais a mesada mensal. Assim, o casalzinho viveu essa vida até o antepenúltimo período do curso médico, quando já projetava a profissão que iria iniciar. Só que, de súbito, o sogro de Pio morreu – o que, segundo Zito, foi um deus ex machina no drama vivido pelos pais de Jó. Face ao inesperado, com o que lhe coube da enorme herança partilhada com as irmãs, Eva comprou um apartamento para morar. Bem como cobriu os custos de instalação de uma clínica com dez consultórios e equipada com modernos e sofisticados aparelhos médicos. Contudo, o projeto maior e mais ambicioso dela e do marido é ter outro filho, o que deixa os avós nordestinos Inês e Zito ainda mais corujas.

 

*Escritor


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