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O Treze de Arrupiado

 

Antonio Falcão

afalkao@hotmail.com

 

Em uma Fliporto, após o debate sobre “literatura e futebol”, três ami­gos seguiram falando entre si do assunto. O mais novo disse que se escrito­res como Zelins, Albert Camus e Hobsbawm fossem vivos, provavelmente – tal qual (agora finado) Eduardo Galeano – diriam que os melhores times do mundo são Bayern de Munique, Barcelona, Real Madrid e PSG. Já um dos dois outros afirmou que, em se tratando da atualidade, tudo bem. “Mas nenhum desse quarteto amarra as chuteiras do Milan de 1989, com Baresi e aqueles três holandeses geniais. Isso sem falar do selecionado brasileiro de 82, do saudoso técnico Telê”, ampliou o palpite de quem sabe das coisas.

“Acompanho vocês. Contudo, na condição de mais velho deste nosso grupo, acrescerei a seleção da Holanda de 1974, o carrossel laranja do (hoje, recém-falecido) Cruyff  e companhia”, expôs o terceiro. Aí, o que disse Milan perguntou se apoiava que no rol da fama fosse incluído o Flamengo de 81, campeão mundial interclubes. “Claro. E lembro que, descendo no tempo, não se pode olvidar o Brasil com Pelé, Gérson e Tostão na equipe tricampeã da Copa de 70. Bem como do Real Madrid de 1959 a 63, a máquina de jogar bola que contava com Di Stéfano, Puskas e Gento. Ou, nesse período, o timaço do Santos do Rei, Zito e Gilmar, junto com o Botafogo de Manga, Garrincha, Nílton Santos e Didi. E, já que estamos indo fundo, cito ainda o fantástico escrete húngaro do Mun­dial de 1954, outra joia rara do futebol, que não levou a Copa vencida pela então Alemanha Ocidental.”

Nisso, um dos amigos quis saber do idoso qual desses elencos lhe moldara a emoção. E ele, à vontade: “Por incrível que pareça, nenhum. Pra mim, o acabamento sensitivo se dá na infância. E o que mais me toca vem do Treze da minha Campina Grande. À época, entre outros, o time reuniu Arrupiado, Harry Carey e Ruivo, ídolos que os anos inexoráveis engoliram pelo caminho. Daí, ao lado do amor à minha mulher e aos livros, lembrar esse pequeno clube nordestino ainda me proporciona instantes indizíveis de prazer. E, note-se, tudo vindo de quando os meios de comunicação engati­nhavam, algo como aquele ‘sem rádio e sem notícia das terras civilizadas’ musical de Luiz Gonzaga. Assim, não é por acaso que levo sempre comigo o traço definitivo da meninice pejada de pobreza, muita pobreza, mas feliz. E dessa reminiscência lírica do Treze paraibano eu jamais arredarei pé.”

 

*Escritor


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