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ARTIGO

Os livros emprestados

 

Antonio Falcão

afalkao@hotmail.com

 

Há anos, na Fliporto, o sulista Jota, que vive no Nordeste, conheceu num grupo alguém que se disse o mais fanático e voraz dos leitores. Esse tal, ouvindo que o evento literário impulsiona o mercado livreiro e estimula a inteligência, sem quê nem pra quê se saiu com esta: “Ainda bem que os que emprestavam livros uns aos outros quase sumiram. Eu sempre achei aquilo um verdadeiro absurdo. Para mim, o livro é como roupa íntima: só deve servir ao dono.” E foi apoiado por um outro assegurando que o em­préstimo, antes de difundir a leitura, gerava inimizade. Todavia, como o tal leitor compulsivo quis saber a opinião do sulista, indagou: “E você aí, gente boa, o que acha desta tese por mim levantada?”

Antes de discordar, o calmo Jota ponderou que essa velha prática faz parte duma época em que a renda das pessoas era baixa e que, por força dos altos custos gráficos e das pequenas tiragens, o preço da publicação ficava inabordável. Além disso, o número de bibliotecas públicas era ínfimo. Mas, embora visse como algo superado, ele e a sua família sempre gostaram de ceder ou tomar uma obra por empréstimo. Isso, mesmo correndo o risco de vê-la devolvida em péssimo estado ou extraviada por algum irresponsável. “Sobre esse hábito, por sinal, quando se transferiu do Sul para cá, a minha filha conheceu no banco onde trabalhava um moço que lia como poucos e a quem passou a pedir livros emprestados. A partir daí, os colegas se fizeram amigos e, mais adiante, marido e mulher. Graças a esse meu genro, ela se aprofundou na arte de iluminados como Manuel Bandeira, Ascenso, Joa­quim Cardozo, João Cabral, Carlos Pena e Mauro Mota, especializando-se no que há de melhor da poesia pernambucana. Logo depois, minha filha descobriu os ótimos poetas literariamente surgidos pós 1965, como o finado Alberto da Cunha Melo, para citar apenas um dos mestres de outras extraordinárias gerações. Assim, conciliando a vida bancária e os afazeres familiares, ela foi professora numa faculdade de letras.”

Nisso, surpreendendo Jota, o leitor voraz disse que nunca lera um desses poetas. Revelando ao sair do grupo: “Até porque a poesia não me diz nada.” E não ouviu isto que o sulista falou aos que ficaram: “Seguindo o exemplo legado pelos pais e por mim, meus netos gostariam também de emprestar livro de papel. Só que eles leem unicamente nos tablets.

 

*Escritor


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