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OPINIÃO

ARTIGO 1

 

A uma recém-nascida

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

 

Há 39 anos, eu morava no exterior e me deu na telha escrever para minha sobrinha Fabíola: Teu nome é um poema e um passarinho me contou que uma estrela de brilho raro resplandeceu alegre no céu do Recife. Daí, acidade e a vida se vestiram com as tintas vivas da ternura, igualzinha à corola de uma rosa desabrochando. Tudo aconteceu quando o anteprojeto de moça que tu és se anunciou, um passarinho me disse. E, note-se, eu já havia te reservado os nomes das filhas que nunca tive: Manuela, Marcela e Joana. Contudo, tua pressa em chegar foi maior que a minha presteza em sugerir aos teus pais, meus compadres, e à tua avó paterna, minha mãe, o nome de mulher que irás vestir pra sempre. Nisso, aqui em Paris eu recebi a notícia que te chamas Fabíola e és linda. Melhor: tens um nome mais sonoro e adocicado que os que eu quis te emprestar. E em teus pais sobram apurados bom gosto e senso musical. Quanto à tua beleza, esta não me surpreende: toda cria de tigre nasce rajada. O certo mesmo é que, Fafá (tento te legar este apelido), teu nome suave foi dado. Mas acho que quem elege como quer  ser  chamada é a pessoa que carrega a graça. Tanto que eu atendo, até, por “Psiu”, embora que na nossa família haja quem me chame “Bacurau” pelo que tenho de notívago.  Na infância,  inclusive,  alcunharam-me “Instalação  Trocada”  – reservando-se os mais íntimos e menos cáusticos a dizerem simplesmente “Instalação” e eu (à época, zarolho) atendia de pronto. Outra coisa certa é que terei de te contar muitas histórias – umas com “e”, outras com “h”. É possível que uma dessas narrativas fale de meninas e meninos maltrapilhos do País. E isso te sensibilize a ponto de veres brotarem ti  a solidariedade e a consciência social. Então, uma vez consciente, opinarás e assim talvez venhas a te dar mal, como acorreu comigo. Essa hipótese, porém, é outro lance e fica para bem depois deste aziago 1976. Por fim, e pensando bem, sobrinha, não sei o porquê desta  cartapiegas, já que como recém-nascida és analfabeta. Hoje, tuas letras são osporres de leite, o bercinho fofo, o mimo dos pais, a corujice das avós... Amim resta te deixar o beijo de boas vindas. E a certeza que – como eu – tentarás melhorar a sina dos nossos compatriotas tão sofridos.

*Escritor

 

 

As jaçanãs

 

João Morais de Sousa* 

 

O menino corria circulando o que restava do açude velho: uma coroinha de água. Duraria uns 15 dias. Doze jaçanãs resistiam em ficar. Açude com água só três léguas dali. O cenário era desolador: arbustos secos e sem folhas, sol quente, chão varrido pelo vento de agosto. Era o segundo ano de seca e o mês agora combinava com desgosto. Naquelas condições qualquer mês combinaria. Canto de passarinho ou sinal de qualquer outro bicho nem nas imediações do açude. Restavam poucas cabeças de gado. Das 150, o patrão vendeu 90 e morreram 15.

Um trator de esteira tirava o barro rachado. O açude estava sendo aumentado. Suportaria mais tempo de estiagem. O menino correu em direção às jaçanãs, duas demonstraram dificuldades em voar. Saíram batendo as assas entre as folhas de gólfãos. O menino ganhou fôlego e perseguiu a mais lenta. Vez por outra, ela levantava voo e retornava ao chão, estimulando uma disputa. Assim, começou a corrida. Depois de uns 20 minutos de perseguição o menino pôs as mãos na ave. Animou-se com o resultado. Ora, se pegou uma, poderia pegar as outras. Disparou em direção a elas. Ao vê-lo, levantaram voo. A que voara baixo não conseguiu se livrar do menino. Ele corria emitindo gemidos que aumentavam ao aproximar dela. A cada voo ele praguejava: “sua condenada, sua infeliz, eu te pego sua peste!”.

Teve uma hora que os gemidos se transformaram em choro. Foi uma topada numa pedra e a unha do dedo grande direto foi levantada. Ouviu uma provocação do patrão: “ou moleque mole! Com uma coisinha besta já está chorando”. Engoliu o choro. Não podia respondeu ao patrão. Criou raiva e continuou a corrida. Uma hora depois, a jaçanã e ele cansados, resolveram desistir. Ele primeiro. O coração batia forte e queria sair pela boca. Depois de mais um voo, gritou: “você venceu satanás, não aguento mais, vou parar”. E desacelerou. A jaçanã baixou voo e se enganchou entre uns galhos de muçambê. Suado, queimado do sol e com sede, avistou a ave se debatendo. Ganhou forças. Acelerou e na velocidade que vinha topou o dedo machucado num touco de jurema e gritou: “valei-me Nossa Senhora”! Caiu bem cima da jaçanã. Pegou-a com a mão esquerda.

Arranhou os joelhos, a barriga e os braços no tombo. Com o prêmio nas mãos se desinteressou de chorar. Costumava chorar por menos! Encorajado pela captura das aves e pela empolgação do pai, recuperou o fôlego perdido. Bebeu água e partiu em velocidade. Desta vez todas as jaçanãs voaram. Pousaram distante dali. Quando ele se aproximou, voaram e pousaram longe. O sol esquentava, já passava das 11h. Correu até ao meio dia e não conseguiu se aproximar do bando.

Era hora do almoço e o pai, vendo o filho cansado com vários arranhões nas pernas e uma unha esfolada, verificou as jaçanãs presas. Logo percebeu o porquê de elas não voarem tanto: haviam sido baleadas por algum caçador. Marcas de chumbo foram encontradas em suas asas. Acabando ali o sonho do menino e o seu desejo de pegar o resto. Em casa a mãe despenou e assou as duas. Um taquinho para cada filho (sete). Era o único tempero para misturar ao feijão preto duro que teimava em não cozinhar (distribuído nas frentes de emergências) com um arroz branco travoso. O menino comendo seu taquinho imaginou como seria bom se tivesse pegado pelo menos umas cinco jaçanãs.

 

*Professor da UFRPE e Presidente da Academia Igarassuense de Cultura e Letras


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