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Até a última chama

Antonio Falcão *

 

afalkao@hotmail.com

 

Na Espanha, a artista plástica Elza casou com um empresário e foi mãe duas vezes. Mas em 1981, com os filhos adultos, o marido morreu, o que a levou a se dedicar à criação artística, enfurnando-se no ateliê instalado nos fundos da mansão em que vive. Isso até conhecer o divorciado Pepe, professor e crítico de arte, homem bem-humorado com quem se identificou intelectual, política e socialmente. À parte tais elementos que os fizeram ótimos amigos, uma atração física descomunal os tornou amantes com pouco tempo, levando-os naturalmente a coabitar.

Desde aí, no verão europeu, eles tiravam férias de dois meses, sendo cada viagem uma nova e tórrida lua de mel. Por isso, foram a várias partes do mundo – inclusive São Paulo, Rio, Salvador e Recife, cidade onde viram uma mostra expressiva do que há de melhor das nossas artes plásticas. Porém, 14 anos adiante, quando Pepe se aposentara do magistério e curtia as viagens com a parceira, teve que extirpar a próstata cancerosa. E, a seguir, desgraçadamente Elza também adquiriu uma enfermidade que a deixou paralítica da cintura para baixo, obrigando-a a se locomover em cadeira de rodas. Embora tais fatos tenham zerado a vida sexual deles – e os impedido de viajar –, o amor e a amizade se enraizaram mais. Tanto que, após os instantes de criação de um e outro, toda tarde, com ele ladeando a cadeirante, os dois vão habitualmente ao parque próximo de onde moram. Assim, enquanto passeiam, Elza e Pepe trocam juras de amor, opinam sobre tudo e se acariciam com ternura. Isso, além de encontrarem com outros compatriotas para deplorar a estagnação econômica da Europa, fato que levou em 2014 – 50% da juventude espanhola ao desemprego e à falta de perspectiva a curto e médio prazos.

Hoje, por força dessa debâcle continental, um neto dessa senhora sobrevive no Recife e confessa que os idosos seguem apaixonados. E que, aos 86 anos, a artista define esse sentimento entre eles como mais belo e valioso que tudo que pintou ou esculpiu. Isso sem contar que os dois garantem ir assim até o apagar da última chama de suas vidas. Daí, o rapaz afirmar em voz alta, como se estivesse diante da parenta: “Deus lhe ouça, vovó.” E dizer em off e envergonhado que torce para que a paraplégica não saiba que a Holanda humilhou a Espanha na última Copa do Mundo.

Pois é, disse-lhe eu intimamente – e ainda doído pelos 7 a 1 dos alemães sobre nós nessa Copa –, tomara que a artista plástica ignore, sim.

 

 

*Escritor



ARTIGO

 

Foi assim e paciência

 

Antonio Falcão*

 

afalkao@hotmail.com

 

Aos 38 anos, fora do peso e de beleza comum, a bem-sucedida profis­sional de saúde Baiana (nome fictício) se deu conta que as amigas estavam casadas ou namorando. E ela, a contragosto, vivia só. Mas um moço atraente a olhava insinuante toda vez que abastecia o carro. Pensando nele, ao sair do consultório, ela foi ao posto de gasolina e quis saber a que horas o frentista largava do trabalho, convidando-o para jantar no dia se­guinte.

Todavia, sem constrangê-lo, ela elegeu um restaurante simples, onde viu que o rapaz, 8 anos mais novo, apesar da baixa escolaridade era inteli­gente e, a seu modo, meigo. A partir de então, durante três meses eles fo­ram juntos a motéis e aprofundaram o namoro. Até que, empolgada com o relacionamento amoroso, Baiana o convidou para morar no apartamento de cobertura onde vivia num prédio de classe média alta.

Coabitando, conheceram-se melhor. Ele pensava em largar o em­prego de frentista e voltar à escola. E ela, vendo no amante um vulcão a lhe incendiar, sentia mais e mais algo infatigável e inventivo enlouquecendo-a de prazer e paixão. Assim, antes de um ano de convívio, Baiana lhe confes­sou que queria ter filho. E, após um dia refletindo sobre a proposta, o moço sem rodeio disse curto e grosso: “Para fazer menino, convém casarmos no papel, querida. Afora isso, pra sair do posto e estudar, necessito ter do que viver, inclusive como cobrir os estudos. Resumindo: quero de você, além do casamento no cartório, um carro zero e uma mesada mensal de R$ 6 mil. É pegar ou largar.” Aí, ferida no amor próprio, ela desfechou fulminante: “Você não passa de um reles gigolô. E, para sua frustração maior, vai sair da minha casa agora. Arrume já a mala que lhe levarei, mesmo sabendo que é politicamente incorreto, para onde você nunca deveria ter saído.” E ao deixá-lo na comunidade pobre em que vivia com a família, da boca pra fora ela advertiu: “Darei ordem aos seguranças da portaria para não lhe permitir entrar no meu prédio, fique sabendo.”

Dias adiante, ainda magoada pelo ocorrido, Baiana contou tal histó­ria com detalhes íntimos a uma das sócias do consultório. Contudo, apesar dos pesares, admitiu que continuaria buscando alguém. “Vida que segue”, afirmou. E, fechando o que confidenciara, expôs com realismo: “Foi assim, colega. E é uma pena. Mas paciência.”

 

* Escritor.



O Lula que faz falta

Antonio Falcão* – afalkao@hotmail.com

No País perdedor da Copa em casa em 1950 e 2014, a falta do jornalista Lula Carlos é sempre sentida por todos nós. Dele – que nasceu Luiz Carlos Lopes Pereira e foi, também, advogado e escritor – perdemos a fina ironia e a clareza bem-humorada dos textos de glorificação ou crítica ao futebol. Boa parte do que assinou foi na coluna “Dois Toques” do recifense Jornal do Commercio, onde se expôs com originalidade, talento e (segundo seus colegas de redação) bom companheirismo por mais de três décadas.

Mas neste Grande Recife vou falar do Lula que conheci na adolescência, quando jo­guei no Esporte Clube de Campo Grande, meu aprazível bairro. À época, ele era diretor de fute­bol do nosso time e assessorava a inteligente presidência do estudioso es­portivo Aldênis Teixeira. Isso afora dar apoio ao técnico Esquerdinha (ape­lido de Rodolfo Aguiar, empresário da construção civil e ex-presidente do meu Santa Cruz). Bem como – e sobretudo – pelos seus sábios aconselhamentos éticos. Uma lição inesquecível ocorreu quando o Esporte foi atuar na Usina Trapiche, em Sirinhaém. Antes da partida, o jor­nalista nos reuniu para dizer que o adversário contava com uns jogadores profissionais (creio que do América recifense). E que eles, coitados rapazes, iam à usina ganhar uma ninharia a fim de melhorarem o sustento de suas humil­des famílias. Portanto, que nós, estudantes de classe média, os respeitásse­mos – evitando gozação, insulto, drible humilhante etc.

Em 2004, Lula Carlos me pediu para escrever o prefácio do seu livro “Meus 50 anos de Cronista” (Comunigraf/Recife) e eu quis falar desse exem­plo de respeito humano, mas não o fiz. Agora, há 12 anos da obra editada – com orelhas escritas pelos talentosos Stênio José e Salomão Sales Couto, e contracapa de Arthur Carvalho, este dizendo ser Lula “caneta de ouro”) –, cumpro o intento. E, hoje, certo que o apolítico Lula de bom caráter era tão pernambu­cano e útil ao Brasil quanto seu xará e ex-presidente da República – o mais carismático dos governantes brasileiros. Melhor: que o escritor continua sendo a maior referência da nossa crônica esportiva. Além de modelo de honradez pessoal e jornalística. Essas entre outras tantas virtudes que me levam aqui a lembrá-lo com saudade. E a concluir que com Lula Carlos poucos homens podem, ousam ou devem se comparar.

 

* Escritor



Mágoa e solidariedade

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com



Ao lado de uma morena e outra loura, a minha amiga estava num salão de beleza esperando atendimento. Aí, a primeira disse em voz alta, como que se referindo ao que lia numa revista: “Antes de se ocupar com o sumiço de Amarildo e a espionagem americana na Petrobrás, o Brasil deve­ria combater o homossexualismo, isto sim. Na Rússia, por exemplo, há uma lei contra os gays.” A seguir, expôs a irritação com paradas da diversidade sexual que ocorrem pelo País. Segundo ela, a polícia autoriza e dá proteção a isso. Pior: a mídia também tem culpa, pois cobre as passeatas e divulga “a sem-vergonhice que reúne gente de cor e pobre, um acinte à família”. Em seguida, falou que, no Espírito Santo, um sogro de 60 anos se apaixonara pelo genro de 37 e foram viver juntos. Como as duas apenas ouviam, a mo­rena as inquiriu sobre o que pensavam “do avanço da homossexualidade que não poupa, sequer, a bela jornalista Fernanda Gentil, da Rede Globo”.

Sem se alterar, a loura disse que, como democrata, católica e cidadã, aceitava qualquer orientação política, sexual e ou religiosa. No ato, a ho­mofóbica achou isso um absurdo e ouviu: “Absurdo seria se você não pu­desse dizer o que pensa e eu fosse proibida de opinar, como na ditadura.”

Como minha amiga assentiu com o que disse a democrata, a outra supôs que elas pensavam assim por ignorarem o homossexualismo na fa­mília. Nisso, calma, a loura esclareceu que, à parte sua solidariedade com as minorias, tinha uma filha lésbica, a quem ela e o marido apoiam. “Nossa menina é homossexual desde a adolescência, mas casou com um colega de faculdade e nos deu um neto. Depois, desfez o casamento numa boa e, di­vorciada, conheceu uma moça (por sinal, negra) com quem se juntou. Hoje, as amantes vivem felizes, são vitoriosas como profissionais na área de sa­úde e aceitas socialmente. De resto, ambas sempre foram pessoas gentis, pacatas e de bons caracteres.” Ouvindo isso e com ar de quem concordava com a loura, restou à morena dizer que, de sua parte, tinha mágoa dos gays porque fora largada pelo marido, caído de amor por um deles. Mas que iria rever seu entendimento a esse respeito.

Assim, vendo as duas conversarem com civilidade, minha amiga foi chamada pela cabeleireira, ficando sem saber a conclusão do papo. Porém, convicta de que nesse dia o preconceito perdeu uma adepta fervorosa.

 


*Escritor



O último führer

 

Antonio Falcão*

afalkao@hotmail.com

 

Há muito, Zito casou com Inês, saiu do Nordeste e tem do que viver. Ele diz que Pio, seu filho, no cursinho pré-vestibular conheceu Eva, a única solteira das filhas dum industrial aposentado e viúvo. Como namorados, os jovens entraram na faculdade de medicina e no quinto período do curso ela engra­vidou. Daí, sem cessar os estudos, casaram. E, a pedido do sogro, Pio foi morar com Eva na mansão, onde nasceu Jó. De sua parte, Zito garantiu por mês uma ajuda para manter com dignidade o filho, a nora e o neto.

Todavia, com dois anos de convívio e se amando sempre mais, o ca­sal percebeu que o pai de Eva interferia em tudo, inclusive na opinião polí­tica de um e outro. Tanto que, provocativo, o viúvo falou que jamais vota­ria numa mulher pra ser presidente, governadora ou prefeita. E Eva e Pio apenas se entreolharam. Depois, sem quê nem pra quê, ele disse convicto e doutrinal que negros, índios, judeus e homossexuais eram seres desprezí­veis. De cara, a filha chamou-o de “o último führer nazista”. E o precon­ceituoso: “Dê-se por satisfeita, pois, pensando nos seus sogros, não incluí entre os desprezíveis a racinha nordestina”. Aí, o genro protestou e, na lata, disse a Eva que ali não morava mais. Ela quis acompanhá-lo, mas Pio pediu que ficasse, prometendo conversar melhor sobre isso na escola.

No dia seguinte, em comum eles decidiram que Eva e Jó viveriam com o pai dela de segunda à quarta-feira, indo ambos da quinta ao domingo pra casa de Inês e Zito a fim de ficar com Pio. Isso, além de se verem nas aulas. Mesmo mantendo a babá, em represália o führer suspendeu o plano de saúde de Eva e do neto. Daí, Zito os incluiu na assistência médica da sua família e reforçou ainda mais a mesada mensal. Assim, o casalzinho viveu essa vida até o antepenúltimo período do curso médico, quando já projetava a profissão que iria iniciar. Só que, de súbito, o sogro de Pio morreu – o que, segundo Zito, foi um deus ex machina no drama vivido pelos pais de Jó. Face ao inesperado, com o que lhe coube da enorme herança partilhada com as irmãs, Eva comprou um apartamento para morar. Bem como cobriu os custos de instalação de uma clínica com dez consultórios e equipada com modernos e sofisticados aparelhos médicos. Contudo, o projeto maior e mais ambicioso dela e do marido é ter outro filho, o que deixa os avós nordestinos Inês e Zito ainda mais corujas.

 

*Escritor



O Treze de Arrupiado

 

Antonio Falcão

afalkao@hotmail.com

 

Em uma Fliporto, após o debate sobre “literatura e futebol”, três ami­gos seguiram falando entre si do assunto. O mais novo disse que se escrito­res como Zelins, Albert Camus e Hobsbawm fossem vivos, provavelmente – tal qual (agora finado) Eduardo Galeano – diriam que os melhores times do mundo são Bayern de Munique, Barcelona, Real Madrid e PSG. Já um dos dois outros afirmou que, em se tratando da atualidade, tudo bem. “Mas nenhum desse quarteto amarra as chuteiras do Milan de 1989, com Baresi e aqueles três holandeses geniais. Isso sem falar do selecionado brasileiro de 82, do saudoso técnico Telê”, ampliou o palpite de quem sabe das coisas.

“Acompanho vocês. Contudo, na condição de mais velho deste nosso grupo, acrescerei a seleção da Holanda de 1974, o carrossel laranja do (hoje, recém-falecido) Cruyff  e companhia”, expôs o terceiro. Aí, o que disse Milan perguntou se apoiava que no rol da fama fosse incluído o Flamengo de 81, campeão mundial interclubes. “Claro. E lembro que, descendo no tempo, não se pode olvidar o Brasil com Pelé, Gérson e Tostão na equipe tricampeã da Copa de 70. Bem como do Real Madrid de 1959 a 63, a máquina de jogar bola que contava com Di Stéfano, Puskas e Gento. Ou, nesse período, o timaço do Santos do Rei, Zito e Gilmar, junto com o Botafogo de Manga, Garrincha, Nílton Santos e Didi. E, já que estamos indo fundo, cito ainda o fantástico escrete húngaro do Mun­dial de 1954, outra joia rara do futebol, que não levou a Copa vencida pela então Alemanha Ocidental.”

Nisso, um dos amigos quis saber do idoso qual desses elencos lhe moldara a emoção. E ele, à vontade: “Por incrível que pareça, nenhum. Pra mim, o acabamento sensitivo se dá na infância. E o que mais me toca vem do Treze da minha Campina Grande. À época, entre outros, o time reuniu Arrupiado, Harry Carey e Ruivo, ídolos que os anos inexoráveis engoliram pelo caminho. Daí, ao lado do amor à minha mulher e aos livros, lembrar esse pequeno clube nordestino ainda me proporciona instantes indizíveis de prazer. E, note-se, tudo vindo de quando os meios de comunicação engati­nhavam, algo como aquele ‘sem rádio e sem notícia das terras civilizadas’ musical de Luiz Gonzaga. Assim, não é por acaso que levo sempre comigo o traço definitivo da meninice pejada de pobreza, muita pobreza, mas feliz. E dessa reminiscência lírica do Treze paraibano eu jamais arredarei pé.”

 

*Escritor



Mestre Luiz Carlos Monteiro

Antonio Falcão

 

afalkao@hotmail.com

 

A extinta Livro 7 – livraria que fez o Recife ler – foi palco de ótimos eventos culturais. Afora isso, lá era ponto de encontro de amigos que, quase sempre, abordavam assuntos literários. Tanto que, certa vez, num bate-papo nós falávamos que na qualificação do leitor ou do ficcionista as cantigas de ninar contribuem. E o poeta (então, futuro mestre em teoria da literatura) Luiz Carlos Monteiro disse que boi da cara preta ou pavão em cima do te­lhado, antes de atemorizar, instiga a criatividade da garotada. Adiante, ele acresceu que o mesmo viria das histórias de Trancoso ouvidas pela criança. E a seguir expôs, por exemplo, que as obras infantis de Lobato, Perrault e Ziraldo também estimulam o imaginário dos moleques. Seria, grosso modo, algo como ir da oralidade à linguagem escrita, ajuda do saber natural ao aprendizado sistemático que se recebe em salas de aula. Tudo para que, na adolescência, a compreensão literária seja maior e mais incentivadora – no que concordamos. E já que, além de caçula, Luiz Carlos era o especialista entre nós, eu pedi que ele escrevesse sobre tais passos no aprimoramento de quem lê ou é autor de ficção. No ato, o sensível e cordial homem de letras falou que, com tempo disponível, talvez aprofundasse isto aqui resumido. Portanto, fiquei à espera a partir da metade da década de 1990.

Desde então, li com prazer inúmeros dos seus escritos na mídia de Pernambuco. E nada sobre esses passos “prometidos”. Por isso, nas raras ocasiões em que nos vimos após o fechamento da Livro 7, eu sempre quis lembrar, mas fui evitando para não importuná-lo com cobrança indevida.

Porém, em 2010 – já louvado como escritor e crítico literário –, Luiz era um dos dois organizadores da coletânea “Cronistas de Pernambuco” (Carpe Diem), reunindo escritores daqui e adotivos . Daí, como fez com vários outros, pediu-me um texto para editar e, atendendo-o, cobrei o “ensaio”. Nisso, o intelectual nascido em Sertânia – autor, entre outros livros, de “Para ler Maximiano Campos”, 2008, e “Musa fragmentada – a poética de Carlos Pena Filho”, 2009 – de fato falou que escreveria. Contudo, Luiz Carlos Monteiro não pode cumprir, vez que, meses depois desse contato, faleceu aos 54 anos de idade, desfalcando a inteligência do País. E, pela significativa falta que ele faz, a cultura ainda está enlutada. Isso sem falar em nós, admiradores sau­dosos e carentes do seu enorme talento, claro.

*Escritor



ARTIGO

Os livros emprestados

 

Antonio Falcão

afalkao@hotmail.com

 

Há anos, na Fliporto, o sulista Jota, que vive no Nordeste, conheceu num grupo alguém que se disse o mais fanático e voraz dos leitores. Esse tal, ouvindo que o evento literário impulsiona o mercado livreiro e estimula a inteligência, sem quê nem pra quê se saiu com esta: “Ainda bem que os que emprestavam livros uns aos outros quase sumiram. Eu sempre achei aquilo um verdadeiro absurdo. Para mim, o livro é como roupa íntima: só deve servir ao dono.” E foi apoiado por um outro assegurando que o em­préstimo, antes de difundir a leitura, gerava inimizade. Todavia, como o tal leitor compulsivo quis saber a opinião do sulista, indagou: “E você aí, gente boa, o que acha desta tese por mim levantada?”

Antes de discordar, o calmo Jota ponderou que essa velha prática faz parte duma época em que a renda das pessoas era baixa e que, por força dos altos custos gráficos e das pequenas tiragens, o preço da publicação ficava inabordável. Além disso, o número de bibliotecas públicas era ínfimo. Mas, embora visse como algo superado, ele e a sua família sempre gostaram de ceder ou tomar uma obra por empréstimo. Isso, mesmo correndo o risco de vê-la devolvida em péssimo estado ou extraviada por algum irresponsável. “Sobre esse hábito, por sinal, quando se transferiu do Sul para cá, a minha filha conheceu no banco onde trabalhava um moço que lia como poucos e a quem passou a pedir livros emprestados. A partir daí, os colegas se fizeram amigos e, mais adiante, marido e mulher. Graças a esse meu genro, ela se aprofundou na arte de iluminados como Manuel Bandeira, Ascenso, Joa­quim Cardozo, João Cabral, Carlos Pena e Mauro Mota, especializando-se no que há de melhor da poesia pernambucana. Logo depois, minha filha descobriu os ótimos poetas literariamente surgidos pós 1965, como o finado Alberto da Cunha Melo, para citar apenas um dos mestres de outras extraordinárias gerações. Assim, conciliando a vida bancária e os afazeres familiares, ela foi professora numa faculdade de letras.”

Nisso, surpreendendo Jota, o leitor voraz disse que nunca lera um desses poetas. Revelando ao sair do grupo: “Até porque a poesia não me diz nada.” E não ouviu isto que o sulista falou aos que ficaram: “Seguindo o exemplo legado pelos pais e por mim, meus netos gostariam também de emprestar livro de papel. Só que eles leem unicamente nos tablets.

 

*Escritor



SETEMBRO 2015

ARTIGO 1

 

Uma vida em vão

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

Quando fui aluno do que hoje se chama ensino médio, Jô (nome fictício) já estava casado, tinha filhos e era sectário à beça. Não sei se militante trotskista ou das Ligas Camponesas. Só que era radical em tudo e, por isso, fez-se malvisto na esquerda. À época, ele dizia que a China maoísta, a incipiente Cuba e a risível Albânia seriam a única solução. Mais grave: insultava os religiosos, tachando-os de “deístas imbecis”. E estudante era “pequeno-burguês de merda”. 

Da ditadura militar a 2013, perdi-o de vista. E, por acaso, soube que enviuvara antes de se mudar de Pernambuco. Mas há quase dois anos, num evento cultural, avistei-o já velhinho, todo trêmulo, andando amparado pela neta. E vali-me duma amiga comum que me apresentou ao próprio, a quem falei que o conhecia. “Nunca lhe vi mais gordo”, disse com alívio e sequer viu minha mão estendida para o cumprimento. Providencial, a amiga expôs que eu também fora militante. Aí, de cenho franzido e voz ainda mais sôfrega, Jô explodiu dizendo que a esquerda apunhalara o socialismo pelas costas e, daí, ele achava que toda sua vida foi em vão. Não satisfeito, deu como “típico ultraje à classe operária” o ex-presidente Lula, cujo governo “só serviu às grandes empresas e ao imperialismo ianque”.

Em silêncio, a amiga ouviu esse linguajar político ultrapassado. E, aproveitando o instante de perplexidade, eu falei a Jô que respeitava sua opinião e que nunca fui petista. Mas via nos programas sociais do governo do PT um ganho real dos que trabalham. Para ilustrar, lembrei que mais de 50 milhões de brasileiros ascenderam socialmente graças aos governos de Lula e Dilma. O velhote me chamou de besta e disse que eu confirmava “o ganho do capital imperialista”. Então, vendo o avô irritado e sem controle, a moça nos saudou e quis sair com ele. No entanto, com esforço, Jô nos disse aos gritos que o melhor paraíso comunista ele veria no Além, ao lado de Deus. Isso por obra e graça da sua igreja evangélica. “E verdadeira”, acresceu. Depois, deixou-se conduzir docilmente pela netinha, coitado.

Pasmo, desejei no íntimo que Jô achasse no reino da sua crença a utopia que por aqui já se foi. Enquanto isso, poeticamente, a minha amiga comparou o ex-revolucionário a um barco sem porto, navegando à deriva. E, entristecida, ela de voz embargada me disse pois é. 

*Escritor

 

 

ARTIGO 2

 

Igarassu mui bela cidade.


Ivan Rodrigues*


A mui nobre e sempre leal Vila dos Santos Cosme e Damião, posteriormente cidade de  Igarassu, está localizada às  margens do Oceano Atlântico. Agraciada por paisagens  exuberantes e de povo hospitaleiro. A sua história marca o início da história de Pernambuco e do Brasil. Igarassu é o berço da cultura lusoamericana e seus filhos, desbravadores de terras longínquas. 

A importância de Igarassu ultrapassa fronteiras e muitos a enaltecem. Gilberto Freyre, em longo artigo, disse que: “...Olinda é a mãe de Recife e Igarassu é a avó. Igarassu foi um dos primeiros pontos de colonização da América...”. 

E, graças ao Deus criador de todas as coisas, trouxe para Igarassu homens que amaram esta terra. O exemplo disso é Dr. Eduardo de Brito, que se uniu a outros amantes deste maravilhoso torrão e criaram o Instituto Histórico de Igarassu em 23 de maio de 1953.  Depois de certo  tempo essa tão gloriosa instituição adormeceu. Mas Igarassu tem filhos de coragem e valor. Os professores de História Jorge  Barrêtto  e Fernando Melo decidiram reerguer essa  tão importante instituição. Apaixonados  por  História e principalmente por Igarassu,  convidaram historiadores, biólogos, geógrafos, físicos e pessoas de outras áreas do conhecimento. E como a Fênix ressurgiu das cinzas, a insigne instituição, que hoje denomina-se Instituto Histórico e Geográfico de Igarassu (IHGIg), que tem como função divulgar a história e a cultura igarassuense.  Aos 62 anos, jovem, porém com uma maturidade ímpar, essa instituição busca a cada dia renovar seu compromisso com a  história e cultura de nossa cidade. Em  nome deste tão nobre solidalício parabenizo o município de Igarassu pelos seus 480 anos. Vida longa ao Instituto Histórico e Geográfico e à mui bela cidade de Igarassu. 

 

* Professor de História e presidente do IHGIg



Edição de abril-2015

Muito obrigado, Terêza

 

Antonio Falcão*

 

afalkao@hotmail.com

 

    Ali pelos anos 80, eu estava num bar com a finada Carmita Sobral  (irmã  caçula  das  queridas  Lígia  e  Gracinha)  e  a  poeta Terêza  Tenório.  Com razão,  elas  sentiam a ausência  de nomes femininos  em  unidades  de  saúde.  Por  isso,  hoje,  creio  que sugerissem comigo  o  nome  de  Naíde  Teodósio,  a  cientista  do povo, pro Hospital da Mulher. Também com ambas a nossa turma se reunia aos domingos na praia de Boa Viagem, quando Terêza alternava conosco a recitação de textos. Ela curtia poesia populare lhe rogávamos que dissesse os versos de Zé Limeira rimando “a desgraça de Sansão foi trair Pedro Primeiro...” E, vez por outra, eu  dizia  A chegada de   Lampião  no  Inferno,  de  José  Pacheco. Bons tempos...

  Mas em dezembro de 1995, quando lancei “Mil, novecentose  nós” (Ed.  Comunicarte/Recife)  em  um  botequim  do  então aprazível  Sítio  dos  Valença,  o  câncer  já  havia  nos  subtraído Carmita. A escritora Terêza esteve no lançamento e, lá, foi vítima de  sequestro.  É  que,  com  uns  80  livros  autografados,  um assaltante pôs o berro no rosto da minha mulher (que vendia os exemplares) e ela sensatamente entregou a bolsa com o apurado em dinheiro e cheques. A seguir, quando com um comparsa saíado  bar,  o  bandido  rendeu  Terêza  e  a  fez  levá-los  de  carro  ao Centro do Recife. Isso – comentado en passant no recifense Jornal do Commercio pelos cronistas  Juracy Andrade e Ronildo Maia Leite – repercutiu no meio literário local. E no botequim chocou, entre outros, aos agora extintos Fernando Jaburu, Byron, Amaro Gantois,  Manuelzinho  (goleiro),  Ronildo,  Vileni  Garcia,  Luiz Carlos Duarte, Vaninha Costa Lima e Clávio Valença. (Com este, por  sinal,  a  também  advogada  Terêza  teve  um  namorico meteórico.)

  Já o mês passado, no lançamento do ótimo “O senhor agora vai mudar de corpo” (Ed. Record/Rio), de Raimundo Carrero, euquis  saber  da  poeta  e  não  tive  notícia.  Porém,  no  Jornal  do Commercio  de  1º  de  março  o  antenado  escritor  José  Mario Rodrigues  nos  disse  que  ela,  a  quem  tanto  devemos,  está “gravemente viva”. Daí, deste espaço eu agradeço à minha amiga Terêza Tenório pelo que nos legou literariamente.  E lhe desejo plena recuperação da saúde, claro.

*Escritor

 

Sim, e a Petrobrás?

 

Olbiano Silveira*

 

   Está sendo apresentado à sociedade quase como um apocalipse a fenomenal roubalheira na nossa Petrobrás. E praticamente todos – em especial a imprensa – tratam do assunto como se estivessem obnubilados, fora de órbita - para usar conceitos singelos, eufemismos. Gente, óbvio que não é por aí. Roubalheira inominável, como é o caso, tem que ser tratada exatamente assim, como roubalheira, por todos os títulos execrável. Os atores responsáveis têm de exercer as tarefas necessárias à busca da solução, isto é, mobilizar a polícia. E é a policia quem está cuidando de forma implacável como deve ser. De tão escabroso o episódio, a própria polícia tomou a iniciativa de fazer a devassa, sem esperar a denúncia de quem de direito, ou de dever. A omissão de não denunciar logo e pedir providências contra os ladrões é outra história a ser esclarecida pela polícia e pela justiça, de modo que não fique um só dos assaltantes palitando os dentes. Todos, sem qualquer tipo de exceção, devem pagar. E pagar caro porque cometeram e cometem crimes bem além de hediondos. É com este objetivo – espera-se, sinceramente – que está rolando a investigação na justiça e os cidadãos de bem deste país alimentam a esperança de uma solução minimamente satisfatória, capaz de recuperar o que foi subtraído pelos salteadores e a condenação de todos eles como prevê a lei. Com o rigor necessário.

   Observemos, com o devido cuidado, que o caso não vem sendo tratado pela imprensa e pelos autodenominados representantes da oposição ao governo, da forma como deve ser: caso de polícia. E, se há, como de fato há, políticos responsáveis pela esculhambação, o tema não deverá passar à esfera política, mas ainda mais profundamente da polícia. Inegável que o viés político não pode ser simplesmente desconsiderado porque os aspectos políticos não têm como ser dissociados  de qualquer atividade ou episódio da vida em sociedade. Mas na hora de separar, impõe-se fazê-lo.Enfim, o indispensável, mesmo, é a defesa intransigente com o fim de salvar Petrobrás porque a Petrobrás somos nós, é a nação. Ela não age a favor nem contra quem quer que seja ou contra qualquer situação. As pessoas é que a fazem agir, interagir, funcionar enfim. E isto é o bastante para a compreensão de que a empresa não deve jamais figurar como criminosa, como autora de roubalheira ou outra coisa qualquer. Os bandidos que a saquearam e saqueiam é que devem ser agarrados e encarcerados, um a um. O que nos cabe, a nós cidadãos, à imprensa e a todas as instituições sérias, é defender incondicionalmente a empresa porque ela é patrimônio nacional, um patrimônio, pode-se afirmar, sagrado. Exercendo-se, como parece inarredavelmente necessário, a missão de defendê-la, estar-se-á, isto sim, praticando o dever de cidadania, de condenação às investidas alienígenas e de grupos econômicos, domésticos e de outras plagas, nem um pouco – antes pelo contrário -  interessados na autodeterminação do nosso país.

 

* Jornalista



OPINIÃO

ARTIGO 1

 

A uma recém-nascida

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

 

Há 39 anos, eu morava no exterior e me deu na telha escrever para minha sobrinha Fabíola: Teu nome é um poema e um passarinho me contou que uma estrela de brilho raro resplandeceu alegre no céu do Recife. Daí, acidade e a vida se vestiram com as tintas vivas da ternura, igualzinha à corola de uma rosa desabrochando. Tudo aconteceu quando o anteprojeto de moça que tu és se anunciou, um passarinho me disse. E, note-se, eu já havia te reservado os nomes das filhas que nunca tive: Manuela, Marcela e Joana. Contudo, tua pressa em chegar foi maior que a minha presteza em sugerir aos teus pais, meus compadres, e à tua avó paterna, minha mãe, o nome de mulher que irás vestir pra sempre. Nisso, aqui em Paris eu recebi a notícia que te chamas Fabíola e és linda. Melhor: tens um nome mais sonoro e adocicado que os que eu quis te emprestar. E em teus pais sobram apurados bom gosto e senso musical. Quanto à tua beleza, esta não me surpreende: toda cria de tigre nasce rajada. O certo mesmo é que, Fafá (tento te legar este apelido), teu nome suave foi dado. Mas acho que quem elege como quer  ser  chamada é a pessoa que carrega a graça. Tanto que eu atendo, até, por “Psiu”, embora que na nossa família haja quem me chame “Bacurau” pelo que tenho de notívago.  Na infância,  inclusive,  alcunharam-me “Instalação  Trocada”  – reservando-se os mais íntimos e menos cáusticos a dizerem simplesmente “Instalação” e eu (à época, zarolho) atendia de pronto. Outra coisa certa é que terei de te contar muitas histórias – umas com “e”, outras com “h”. É possível que uma dessas narrativas fale de meninas e meninos maltrapilhos do País. E isso te sensibilize a ponto de veres brotarem ti  a solidariedade e a consciência social. Então, uma vez consciente, opinarás e assim talvez venhas a te dar mal, como acorreu comigo. Essa hipótese, porém, é outro lance e fica para bem depois deste aziago 1976. Por fim, e pensando bem, sobrinha, não sei o porquê desta  cartapiegas, já que como recém-nascida és analfabeta. Hoje, tuas letras são osporres de leite, o bercinho fofo, o mimo dos pais, a corujice das avós... Amim resta te deixar o beijo de boas vindas. E a certeza que – como eu – tentarás melhorar a sina dos nossos compatriotas tão sofridos.

*Escritor

 

 

As jaçanãs

 

João Morais de Sousa* 

 

O menino corria circulando o que restava do açude velho: uma coroinha de água. Duraria uns 15 dias. Doze jaçanãs resistiam em ficar. Açude com água só três léguas dali. O cenário era desolador: arbustos secos e sem folhas, sol quente, chão varrido pelo vento de agosto. Era o segundo ano de seca e o mês agora combinava com desgosto. Naquelas condições qualquer mês combinaria. Canto de passarinho ou sinal de qualquer outro bicho nem nas imediações do açude. Restavam poucas cabeças de gado. Das 150, o patrão vendeu 90 e morreram 15.

Um trator de esteira tirava o barro rachado. O açude estava sendo aumentado. Suportaria mais tempo de estiagem. O menino correu em direção às jaçanãs, duas demonstraram dificuldades em voar. Saíram batendo as assas entre as folhas de gólfãos. O menino ganhou fôlego e perseguiu a mais lenta. Vez por outra, ela levantava voo e retornava ao chão, estimulando uma disputa. Assim, começou a corrida. Depois de uns 20 minutos de perseguição o menino pôs as mãos na ave. Animou-se com o resultado. Ora, se pegou uma, poderia pegar as outras. Disparou em direção a elas. Ao vê-lo, levantaram voo. A que voara baixo não conseguiu se livrar do menino. Ele corria emitindo gemidos que aumentavam ao aproximar dela. A cada voo ele praguejava: “sua condenada, sua infeliz, eu te pego sua peste!”.

Teve uma hora que os gemidos se transformaram em choro. Foi uma topada numa pedra e a unha do dedo grande direto foi levantada. Ouviu uma provocação do patrão: “ou moleque mole! Com uma coisinha besta já está chorando”. Engoliu o choro. Não podia respondeu ao patrão. Criou raiva e continuou a corrida. Uma hora depois, a jaçanã e ele cansados, resolveram desistir. Ele primeiro. O coração batia forte e queria sair pela boca. Depois de mais um voo, gritou: “você venceu satanás, não aguento mais, vou parar”. E desacelerou. A jaçanã baixou voo e se enganchou entre uns galhos de muçambê. Suado, queimado do sol e com sede, avistou a ave se debatendo. Ganhou forças. Acelerou e na velocidade que vinha topou o dedo machucado num touco de jurema e gritou: “valei-me Nossa Senhora”! Caiu bem cima da jaçanã. Pegou-a com a mão esquerda.

Arranhou os joelhos, a barriga e os braços no tombo. Com o prêmio nas mãos se desinteressou de chorar. Costumava chorar por menos! Encorajado pela captura das aves e pela empolgação do pai, recuperou o fôlego perdido. Bebeu água e partiu em velocidade. Desta vez todas as jaçanãs voaram. Pousaram distante dali. Quando ele se aproximou, voaram e pousaram longe. O sol esquentava, já passava das 11h. Correu até ao meio dia e não conseguiu se aproximar do bando.

Era hora do almoço e o pai, vendo o filho cansado com vários arranhões nas pernas e uma unha esfolada, verificou as jaçanãs presas. Logo percebeu o porquê de elas não voarem tanto: haviam sido baleadas por algum caçador. Marcas de chumbo foram encontradas em suas asas. Acabando ali o sonho do menino e o seu desejo de pegar o resto. Em casa a mãe despenou e assou as duas. Um taquinho para cada filho (sete). Era o único tempero para misturar ao feijão preto duro que teimava em não cozinhar (distribuído nas frentes de emergências) com um arroz branco travoso. O menino comendo seu taquinho imaginou como seria bom se tivesse pegado pelo menos umas cinco jaçanãs.

 

*Professor da UFRPE e Presidente da Academia Igarassuense de Cultura e Letras



Artigos de junho

 

Haja pessimismo!

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

 

Em maio último, num bar, enquanto meu grupo falava mal de Vladimir Putin – o execrável presidente russo que quer, com a força econômica do gás natural e das armas, anexar a Ucrânia ao seu país –, informalmente um derrotista recém-convertido veio e se enturmou. Até aí, tudo bem. Ele, por sinal, disse-nos que o propósito maior da política russa é refazer o império czarista, que foi posto em ruína pelos adeptos de Lenin.

Porém – ai, porém –, esse instante de oásis foi desfeito pelo tal que chegara para se transformar de repente em um inominável estraga prazer. E tudo teve início quando me falou em off que havia ido este ano à Europa, como costuma fazer sempre numa mescla de negócio e turismo. “Só que os europeus ficaram o tempo todo dizendo que o Brasil é a sede do crime organizado, que dita normas e põe os policiais em polvorosa”, vomitou. E, no meu ouvido, expôs esta catástrofe: “Por conta disso, ninguém vai vir este ano à Copa do Mundo. Nem às Olimpíadas em 2016.”

Curioso é que, outrora, ele e eu torcíamos para que tudo desse certo em qualquer parte do mundo. E agora, de volta da viagem e com autoridade, o pessimista demoliu pedra por pedra o castelo das minhas certezas e esperanças. Tudo, como frisou, graças ao artigo Haja otimismo..., que escrevi no Jornal do Commercio em 28/07/2013. Sem me maldizer, entre outras coisas ele expôs que, das 12 arenas construídas no País, no pós-Copa quatro delas serão elefantes brancos em Manaus, Natal, Cuiabá e Brasília. Pior: “A pernambucana pode ser a quinta”, ameaçou. Segundo o estraga prazer, isso depois de um Mundial marcado por protestos, assaltos a turistas e nativos, afora desgraças como apagões e escassez de água. Mas o auge do pessimismo foi isto: “O que deveríamos fazer era adiar a eleição presidencial para 2015. Se não for possível, que se escolha indiretamente Joaquim Barbosa, ministro a sair do STF, para ficar à frente do Brasil até as Olimpíadas. A partir disso, elegeríamos Dilma (de novo) ou qualquer outro.” Em seguida a essa aberração, a mulher dele chegou de carro pra apanhá-lo e me disse sem-cerimônia que o marido vive às voltas com antidepressivos para debelar um suplício mental. “Por força do tratamento, inclusive, não fomos este ano à Europa, acredita?” (Ainda bem, madame. E como é bom saber que ele esteja tão doente assim – concluí no íntimo.)

 

*Escritor

 

Academia Igarassuense de Cultura e Letras – AICL

 

João Morais de Sousa*

No dia 13 de junho a AICL completou quatro anos. Nasceu com o propósito de defender a história e a cultura do município. E ser mais um espaço de resistência à cultura de massa, ao modismo e ao mercado. Seu objetivo principal é dotar Igarassu de um espaço voltado para o estímulo da produção literária e artístico-cultural de uma forma geral. Tendo como finalidade cultivar a língua, a literatura, a cultura local e disseminar a leitura para a formação de uma sociedade consciente, participativa e feliz. Parte da premissa de que só se conhece e aprende a gostar da cultura e da história local, revisitando-as e oportunizando espaços. A AICL possui atualmente 25 cadeiras, ocupadas por poetas, professores, escritores e pessoas ligadas à cultura, à educação e à história do município. Cada cadeira tem um Patrono escolhido entre aqueles que muito fizeram pela cena cultural, histórica e educacional de Igarassu. Vale lembrar que a AICL é um sonho realizado pelo professor Fernando Melo.

Nestes quatros anos a AICL tem participado, apoiado e promovido vários eventos e apresentações artístico-culturais tais como: palestras, saraus poéticos e musicais, lançamentos de livros, feiras e concursos literários, contação de histórias, fundação de bloco carnavalesco (História e poesia em folia) e comemorações de datas especiais  - dias do livro e da poesia. Também participado de visitas a espaços da história e da cultura como a realizada ao Memorial J. Borges, em Bezerros, e ao Museu do Cordel e Casa Museu Mestre Vitalino, em Caruaru. Ainda, promovido eventos que têm revisitado a história de Igarassu, como o 9 de março (chegada de Duarte Coelho em Igarassu) e o 27 de setembro (aniversário da cidade). Muitas dessas realizações em pareceria com o Instituto Histórico e Geográfico de Igarassu, O IPHAN local, a Prefeitura e a Câmara Municipal.

Uma realização esperançosa tem sido o II Concurso de poesia, intitulado “Igarassu em Versos”, uma promoção com a Secretaria Municipal de Educação, em parceria com o IPHAN.  Destinado, sobretudo, aos estudantes do ensino fundamental da rede pública e privada do município, com o objetivo de difundir a cultura, descobrir talentos e estimular a produção literária. Assim, como o anterior, as poesias concorrentes só podem abordar temas relacionados ao município – patrimônio histórico, cultura, meio ambiente, belezas naturais. Outras têm sido os Cafés Literários onde são lançados livros de autores locais e homenageados grandes nomes da cultura brasileira. No último, homenageou-se o centenário de nascimento de Vinícius de Moraes. Registra-se também caminhadas e trilhas ecológicas como as feitas pelo Rio São Domingos e em Três Ladeiras (ecossistemas de manguezais e áreas remanescentes de mata atlântica), sensibilizando os participantes para a defesa do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável. Mais realizações esperançosas têm sido as visitas às escolas de Igarassu para falar e estimular crianças, jovens e adolescentes o gosto pela poesia, literatura e cultura erudita e popular. Também os encontros literários e artísticos com as Academias coirmãs do Paulista e Abreu e Lima.

Assim, a AICL está aberta a todas as instituições e pessoas que têm pertencimento a esses ideais. Espera continuar atuante, participativa e combativa na preservação do patrimônio histórico-cultural, da memória, dos valores e tradições do povo igarassuense.

 

*Professor da UFRPE e Presidente da AICL



De iguarias e de amor

Antonio Falcão

De iguarias e de amor

A duras penas, na cozinha eu só sei fritar ovo e “fazer” nescafé. Contudo, mesmo sem nunca ter sido glutão (o que me torna, também por herança, magro), tenho meus pratos prediletos. Um deles é linguiça na brasa, que em datas distintas comi na Feira de Caruaru, numa rua qualquer de Praga (sem páprica) e num box do Mercato la Boqueria, em Barcelona. Outro pitéu foi o espaguete à carbonara polvilhado de parmesão, devorado com gula em uma reles trattoria de Roma. Isso sem falar na divina moqueca de peixe sorvida no olindense Alto da Sé. Só que a iguaria de maior luxo veio a ser o pato ao molho de figo, servido com vinho tinto Petrus – bordeaux superior – no caro restaurante La tour d´argent, à margem esquerda do Sena, em Paris. (À época, eu estudava lá. E a convite – claro! – de um advogado bem-sucedido no Rio e em São Paulo pude ver enquanto jantava no chique 5º andar as belezas inesquecíveis da ilhota de Saint Louis. Isso além de contemplar a parte traseira da Catedral de Notre Dame.)

 

Iguaria de maior luxo, sim. Mas tão apetitosa quanto as que curti em locais feitos pro meu bico financeiro de classe média baixa. Exemplo disso foi o carneiro ao forno – degustado com um tinto beaujolais ordinário de nome Chiroubles – no simples Le tire-bouchon, da parisiense Rue Descartes, ao lado da pracinha da Contrescarpe. Bem como o frango a passarinho do popular O gato que ri, no paulistano Largo do Arouche. Ou o robusto cabrito com arroz à grega e farofa do Restaurante Dom Pedro, na Rua do Imperador, no Centro deste Recife de desigualdades e apagões.

Já as lembranças mais gratificantes vêm de comidas feitas em casa. A começar com a materna sopa de feijão, acompanhada de pão crioulo e afeto. Assim como a almôndega servida com macarronada coberta de colorau e queijo ralado, que mamãe fazia aos domingos. E a terminar com o inigualável filé ao molho de soja e gengibre que Maria Áurea, a minha mulher amada, tem o prazer de preparar pra mim. Ou, às vezes, para uns parentes e amigos convidados. Porém, no sabor desse prato vai o ingrediente essencial, indelével e indizível da receita: nosso casamento de 33 anos, cheio de carinho e companheirismo pelo mundo afora. Daí, com tal périplo gastronômico e breve perfil amoroso, será que ainda me falta alguma coisa para ser feliz? (Imodestamente, acho que não.)

 

*Escritor

afalkao@hotmaill.com



O impacto da educação ambiental na gestão dos resíduos sólidos

Ariovaldo Caodaglio*

 

 

Em decorrência da vigência da lei conhecida como Política Nacional de Resíduos Sólidos, muito se tem falado e escrito sobre o tema nos últimos anos. Enquanto escrevo este artigo, por sinal, o assunto volta ao noticiário por conta da greve dos funcionários das empresas de limpeza urbana no Rio de Janeiro: milhares de toneladas de resíduos amontoados ou espalhados pela cidade, que testemunham, em lógica perversa, a importância que esses serviços têm para a população.

Outro fosse o município, os resultados, mesmo que por motivos diferentes, seriam os mesmos. Os exemplos de Nápoles ou de Buenos Aires corroboram isso. Mais evidentes nas grandes cidades, não são menos importantes nas de menor porte, dentre estas as que convivem com seus lixões a céu aberto.

A responsabilidade pela limpeza urbana é categorizada como de interesse local, ou seja, os municípios respondem pelas ações necessárias nessa atividade. A meu ver, uma responsabilidade objetiva a qual o poder público assume em nome dos cidadãos que habitam seu território. E quem são esses cidadãos? São aqueles mesmos – com as exceções de praxe – que confundem o espaço público como privado, como se as ruas, avenidas, praças e estradas pudessem ser utilizadas para o descarte de tudo aquilo que consideram inservível no momento.

O extremo exemplo vem dos chamados pontos viciados. São locais onde diariamente depositam-se objetos volumosos, como móveis e utensílios e resíduos de construção, mesmo com o poder público tendo para isso serviços postos à disposição do cidadão.

De maneira clara, pode-se inferir que esse mesmo poder público esqueceu-se de buscar o comprometimento do maior protagonista nessas cenas bizarras: o cidadão. Historicamente, desenvolveu-se uma espécie de ação patriarcal, na qual cabe ao município tudo fazer para que, sem a sujidade representada pelos resíduos, o ambiente ofereça respeito à saúde e qualidade de vida. A quem? Aos que nesse ambiente vivem ou transitam, por óbvio.

O município paga para ser limpo, mas não tem como pagar para manter a cidade limpa sem que haja o comprometimento do cidadão na manutenção dessa limpeza. Essa situação somente será resolvida com o fornecimento de informação e geração de conhecimento à população, e isso se faz através da educação ambiental, partindo-se do pressuposto de que o ambiente pode ser desfrutado por todos, desde que com posturas e comportamentos que o respeitem como bem coletivo, diversificado e com recursos finitos.

Esse processo há que ser interativo, levando ao comprometimento progressivo do cidadão com sua rua, seu bairro e sua cidade. A educação ambiental ministrada nas escolas e com reflexos nas entidades civis públicas e privadas, sindicatos, e assim por diante pode e deve mudar a percepção para com os resíduos sólidos em médio prazo, uma geração talvez. Porém, deve ser continuada como um movimento e não apenas como campanhas isoladas, possuir metas e ser adequada na forma e na linguagem para a população que atende.

Não será a implantação ativa e participativa dessa sistemática educativa que imporá aos municípios e aos demais entes federados buracos em seus orçamentos. Estes já existem, representados por tudo aquilo que a ausência da educação ambiental determina. Caminhos há! Basta a vontade de buscá-los!

 

 

 * Cientista social, biólogo, estatístico e pós-graduado em meio ambiente.



Antonio Falcão

Sem ódio ou revanche

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

 

Antes da queima de fogos do último réveillon, Edu e Gil estavam em um bar lembrando a juventude, quando eram estudantes secundaristas e militavam na esquerda. Assim, entre risos críticos, eles falaram à beça do idealismo que fazia da atividade política uma espécie de religião com todos os princípios, deveres, hinos e dogmas imagináveis.

Aí, Gil disse: “Em 1964, meu primo apolítico frequentava uma loja maçônica junto com tiras de polícia e milicos afinados com a ditadura. E, lá, soube que X (aquele que, apoiando-se no nosso grupo, saiu candidato a um posto eletivo onde morava) era um agente infiltrado nas organizações esquerdistas. E nós, babacas, o tínhamos como companheiro, veja só. Tanto que, para elegê-lo, fizemos comícios, panfletagens e visitas a eleitores, lembra?” Edu confirmou e expôs que nunca confiara nele, pois via em X um pulha sem cacoete ideológico. “Tanto que, quando estive em cana, flagrei-o bem vestido e barbeado a falar amistosamente com o delegado chefe da ordem política e social, mostrando-se também íntimo dos demais esbirros. Pior: meses depois que saí da cadeia, eu ia de carro por um subúrbio e o vi bebendo com vários policiais num boteco. Por sinal, dois dos elementos que o acompanhavam me torturaram bastante. A partir de então, perdi-o de vista e, agora, acho até que já morreu.” Gil também admitiu isso, mas ponderou que, há anos e financeiramente arruinado, X se fizera passar por ex-preso político submetido a maus-tratos e requereu indenização ao governo. Completando: “Hoje, apesar de tudo, estou certo que pobres-diabos como ele e seus chefetes nunca foram peças importantes da máquina ditatorial. Para mim, na condução efetiva do regime, expressivos mesmo eram a embaixada dos Estados Unidos, umas três dezenas de oficiais generais de peso das nossas Forças Armadas e os empresários despolitizados do País. O resto – a então grande mídia, políticos de direita, arrivistas, dedos-duros, puxas-saco, torturadores et caterva – era fichinha. Assim, por ter tal entendimento, eu vejo excrescências como X sem ódio ou revanche.”

Com a concordância de Edu, restou aos dois brindar o ano-novo e prometer na despedida se verem mais. A seguir, os quase septuagenários se abraçaram dizendo que o essencial era viver no Brasil democrático. E povoado por gente capaz de perdoar certos energúmenos.

 

 

*Escritor



João Moraes

Tico de Bigobal

 

João Morais de Sousa

 

*professor da UFRPE e Membro da Academia Igarassuense de Cultura e Letras

 

Bigobal desenvolveu um hábito de pegar no alheio sem pedir permissão. Às escondidas pegava nos roçados o que era menos comum: jerimuns, melancias e melões cobertos (os donos diziam esconder das raposas). Nas vazantes, batatas-doces. Não catava feijão e/ou quebrava milho nem nos roçados distantes das casas porque demorava e os donos podiam ver. Um flagra famoso foi quando tentou pegar um cacho de banana maçã, atrás do açude do meio, de Zé Mamede. Na hora em que segurou o cacho com uma mão, inclinando a bananeira, e com a outra levantou a foice, Zé Mamede gritou:  “Ehhhhh”. Ele soltou de supetão  o cacho e saiu em disparada gritando: “Aiiiiiii”. Jogou-se por baixo da cerca de sete arames, levantou-se do outro lado e continuou correndo se desviando das juremas pretas e marmeleiros. Pulou tôcos e pedras sem olhar para trás. Dois dias depois se encontraram e se cumprimentaram normalmente. Não tocaram mais no assunto e Bigobal deixou de visitar o roçado de Zé Mamede.

Bigobal dizia não trabalhar para os donos da terra. Só nos roçados dos moradores.  Orgulhava-se em não ter patrão. Até a casa (de taipa) fez no aceiro da BR 230. Afirmava ser terra pública e que ninguém tomaria. Só o governo federal. Mas ele não se interessaria pelo seu casebre. Sobrevivia fazendo carvão, tirando lenha nas margens da BR. Aqui e acolá caçava (preás e tejus nos anos de abundância) e pescava sem convicção nos açudes do meio e da várzea (traíras e piaus). A caça e a pesca também vinham sem convicção. A sogra repartia a minguada feira com a filha. O sogro não gostava. Zangado, dizia que ela acobertava a vagabundagem do genro.

Bigobal tinha um casal de filhos: Maria de três anos e Tico de sete. O menino era conversador e envolvente. Certo dia, visitando uma tia na cidade, olhando o quintal do vizinho viu uma pinha madura e umas mangas espadas. Nessa hora a tia perguntou o que ele faria quando crescesse. Ele respondeu: "vou aprender a voar para pegar coisas como aquela pinha e aquelas mangas ali". A tia exclamou: "meu Deus! Igual ao pai: já pensa em pegar no alheio". Tico respondeu: "Deus me livre, painho só vive cortando jurema, fazendo carvão e não tendo nada. Eu quero é voar para ajudar painho e fazer mainha feliz!”

 

Preso às precárias condições de vida do Sertão e sem esperanças de mudanças, Bigobal nunca se submeteu ao jugo dos donos da terra. Mesmo vivendo na pobreza, Tico encobriu muitas pancadas sonhando com um mundo melhor.



ARTIGOS

O santo do Santinha

 

Antonio Falcão – afalkao@hotmail.com

 

Aposentado, boa-praça e espírita, Ely – nome fictício – sempre mudou de opinião política, casa e mulher. Mas nunca abandonou a fidelidade à doutrina de Alan Kardec e ao Santa Cruz Futebol Clube. Quanto a este, no ano em que a equipe saiu humilhada da série A do Brasileiro, sua atenção redobrou. À época, Ely ainda estava na ativa como bancário e coabitando com a terceira ou quarta companheira, não sei ao certo.

Porém, assim que conheceu e passou a viver com uma bela e assídua frequentadora de terreiro de umbanda, ele admitiu que seu time do coração tirasse proveito da crença da mulher através de despacho em encruzilhada e expedientes afins. Daí, sem deixar de comparecer ao centro espírita, ao lado dela apelou aos Orixás afro-brasileiros. Só que, sem resultados positivos na classificação, o Santinha caía sempre nas diferentes séries do certame. Diante disso, quando cobrou da umbandista, a devota disse que a condição de rubro-negro do babalorixá do seu terreiro decerto estava interferindo. É evidente que o tricolor Ely não se convenceu com o argumento. E isso, anos depois, pesaria na separação deles.

Em 2012, pensando no Santa Cruz e enrabichado por uma católica carismática de carteirinha, o kardecista casou outra vez. É verdade que a moça jamais quis convertê-lo. Mas lhe incutiu a necessidade de fazer promessa ao santo da sua devoção e Ely topou numa boa. Assim, o ano passado, para que o clube coral ascendesse à série B, ele prometeu passar seis meses se abstendo de álcool. Já ela, discreta na fé cristã, jurou que, se o milagre acorresse, não comeria mais chocolate – uma baita renúncia.

Agora, com o Santa alcançando a graça, os dois escondem de todos o nome do milagreiro. E alegam que não fica bem para um santo católico a fama de torcer por time de futebol – no que eu, também tricolor, aprovo. Depois, mantendo o impecável na clandestinidade, este ano talvez o casal apele a ele de novo, dessa feita para que o popular clube recifense retorne à série A do brasileirão. E melhor: que, a partir de 2015, exiba anualmente na sede um troféu desse torneio nacional. Como a fé remove montanha, resta esperar. (Pra mim, que não sou religioso, o benfeitor do Santinha deve ser o novo padroeiro das causas impossíveis. Mas dessa crença íntima não falarei jamais a Ely. Nem a ninguém.)

*Escritor

 

Os 30 anos do MST e a luta pela reforma agrária hoje

 

 

Guilherme Costa Delgado*

 

Nesta semana de 10 a 15 de fevereiro o MST celebra os seus 30 anos de fundação, por ocasião do VI Congresso que realiza em Brasília. O momento é propício para uma reflexão em perspectiva sobre dois temas conexos – questão agrária e reforma agrária, ambos relacionados à estrutura de propriedade, posse e uso da terra.

O próprio surgimento do MST no final do regime militar (1984) e primórdios da construção do Estado democrático (1988) é sinal do retorno da Questão Agrária, declarada ainda no início do ano 60 do século passado, sistematicamente negada pela ditadura militar mediante apelo explícito às armas, por um lado, e ao projeto econômico de "modernização conservadora” da agricultura, por outro.

A questão agrária, politicamente concebida, contém uma proposta de mudança da estrutura agrária, construindo um novo regime de direitos agrários que a Constituição de 1988 adota: 1) princípio da função social e ambiental legitimando o direito de propriedade e toda a política agrária (Art. l84-186); 2); 2) designação do estatuto das terras indígenas (Art. 231); 3) normas de preservação ambiental e de designação das terras de reserva florestal (art. 225). Além dessas designações, remanesce um imenso patrimônio de terras públicas devolutas, relativamente descontroladas, correspondente a mais de 1/3 do território nacional (Cf. IBGE - Censo Agropecuário de 2006).

Decorridos 25 anos da promulgação Constituição de 1988 e 30 anos da fundação do MST, o cerne do regime fundiário da Constituição de l988, qual seja a mudança da estrutura agrária, que é também o principal fundamento da reforma agrária, continua sistematicamente negado, agora não mais pelo regime militar, mas pelas forças políticas hegemônicas que construíram nos anos 2000 a nova "modernização conservadora”, autodenominada de economia do agronegócio.

É bem verdade que, sob a égide da Constituição de 1988 e ainda sob pressão constante do movimento social, particularmente do MST, houve uma ação importante de distribuição de terras no nível do governo federal – o Programa de Assentamento de Trabalhadores Rurais, formalmente responsável pelo assentamento de cerca de 1 milhão de famílias em áreas para este fim destinadas, oriundas em sua grande maioria de terras devolutas públicas. Isto evidentemente é uma realidade importante, a ser aprofundada; mas que não toca ainda ao cerne da reforma agrária – uma mudança de toda a estrutura agrária nacional (direitos de propriedade, posse e uso da terra), coadjuvada pela ação de redistribuição fundiária, incidente sobre a propriedade fundiária que descumpre a função social e ambiental.

A questão agrária em aberto no século XXI é bem mais complexa que aquela que o MST enfrentou nos seus primórdios. Àquela época, o sistema agrário dominante, em crise econômica e política (fim do regime militar), resistia às mudanças ao velho estilo (do apelo às armas privadas ou estatais). Hoje, sob a égide do pacto de poder dominante, o processo sistemático de negação à mudança da estrutura agrária, segundo o princípio do próprio regime fundiário constitucional, conta com estratégia concertada, por dentro e por fora do Estado, com vistas à completa ‘mercadorização’ das terras.

Atualmente, são armas ideológicas das mídias e da cultura do agronegócio, apoiadas por forte aparato econômico das cadeias agroindustriais voltadas à ‘reprimarização’ do comércio exterior, as grandes inimigas da reforma agrária. Ademais, com controle sistemático do Congresso (bancada ruralista), do Executivo Federal há quatro governos sucessivos, e sob o silêncio obsequioso do Judiciário, ou da sua extremamente lenta manifestação, persegue-se um processo gradual de desmonte do regime fundiário constitucional, retroagindo-se á lei de terras de 1850.

Diante deste quadro complexo, os desafios à reforma agrária são evidentemente outros, que não há espaço aqui para comentar. Mas obviamente não eliminam, ao contrário, exacerbam a necessidade de mudança da estrutura agrária, ora submetida a invulgar cobiça do capital e do dinheiro mundiais, à revelia da função social e ambiental da propriedade da terra.

 

 

* Doutor em Economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.


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